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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 18 Atos

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

ATOS – AULA 18[1]

            O livro de Atos, assim como, por exemplo, os livros de Rute e 2Samuel, é histórico e por isso possui as mesmas características e deve ser lido e interpretado do mesmo modo que os livros históricos do Antigo Testamento. Porém, enquanto os cristãos leem os livros históricos do Antigo Testamento e enfrentam sérias dificuldades de aplicar os ensinos em suas vidas, esses mesmos cristãos leem Atos e tomam tudo o que leem como exemplos serem seguidos ao pé da letra. Esta atitude gera o problema hermenêutico de Atos.

            Este problema hermenêutico surge porque não podemos ler e aplicar o que lemos em Atos indiscriminadamente em nossas vidas e em nossas comunidades locais. Esse erro tem resultado em várias divisões na Igreja e o apoio de doutrinas e práticas que não deveriam ser sustentadas como, por exemplo, a manipulação de serpentes, promovida por alguns que a sustenta com base em Atos 28.1-10.

 

A EXEGESE DE ATOS

            O objetivo da exegese de Atos é gerar o interesse no leitor da busca dos objetivos de Lucas ao escrever Atos e não apenas interesses históricos e/ou devocionais.

 

            Atos como história

            Lucas era gentio com forte relação com Paulo (cf. Cl 4.14) e escreveu Atos influenciado pela escola historiografia helenística que tem suas raízes em Tucídides (400 – 460 a.C). Esta escola floresceu entre os anos de 300 a.C. e 200 d.C. e não era o simples registro dos fatos ou uma crônica do passado. Antes, o objetivo era encorajar, informar, moralizar e apologético. Por isso, é de suma importância entender que Lucas não desejou apenas contar uma história, mas tinha interesses específicos. Isso deve levar o leitor a questionar cada informação e perícope com a seguinte pergunta: Qual o propósito de Lucas selecionar e colocar esta informação/texto aqui?

            Essa resposta é importante porque se entendermos que Atos é normativo, isto é, é a regra de vida para todos os cristãos em todos os tempos, responderemos de uma forma, mas se entendermos diferentemente, responderemos de outra forma.

            Primeiro passo: Uma visão panorâmica

            Como em todos os casos, o primeiro passo é uma leitura (ou leituras!) do livro todo, buscando entender o “movimento” que acontece dentro do livro. Esse exercício busca entender as divisões naturais do livro, concedidas pelo próprio autor.

            Muitos defendem a divisão de Atos baseado no interesse de Lucas em Pedro (capítulos 1 – 12) e depois Paulo (capítulos 13 – 28). Outra opção defendida é baseada na expansão geográfica do anúncio do Evangelho: 1 – 7 em Jerusalém; 8 – 10 em Samaria e Judéia; e 11 – 28 até os “confins da terra”. As duas divisões citadas acima são baseadas no texto de Atos e plausíveis, porém há outro indício fornecido pelo próprio autor do livro que melhor se ajusta. Esses indícios são breves declarações de resumo a respeito da “Palavra do Senhor”, da ação do Espírito e do crescimento da igreja.  Baseado nesses indícios, Atos parece fazer uma pausa antes de tomar nova direção. A partir desses indícios, Atos pode ser visto como sendo composto de seis seções que dão movimento a narrativa para frente, em cumprimento as palavras do Senhor em 1.8. Inicia-se em ambiente judaico em Jerusalém com Pedro como liderança principal e a igreja predominantemente gentia e ruma ao mundo gentio, até Roma, como Paulo como liderança em destaque e mais uma vez se volta aos gentios, pois eles “escutarão” acerca da salvação de Deus (cf. At 28.28). Desta forma, as seções são como seguem:

  1. i.1.1 – 6.7: Uma descrição da igreja primitiva em Jerusalém, sua pregação, sua vida em comum, sua propagação e a oposição inicial. Todos esses aspectos, tanto positivos quanto negativos são muito influenciados pelo judaísmo. Exemplo disso é a ligação dos cristãos com as sinagogas e com o templo. A seção termina com um breve resumo do autor que indica uma divisão entre os discípulos de fala grega e os de idioma
  2. ii.6.8 – 9.31: Descrição da primeira expansão geográfica, levada a efeito pelos helenistas (cristãos judaicos de fala grega) para os judeus da Diáspora (judeus localizados fora da Judéia) e para os samaritanos e prosélitos (gentios convertidos ao judaísmo). Nesta seção Lucas inclui a conversão de Paulo que era helenista, opositor judaico e que após a conversão lidera a expansão gentia do Evangelho. O martírio de Estevão é a chave desta expansã
  3. iii.9.32 – 12.24: Descrição da primeira expansão do Evangelho entre os gentios. A chave é a conversão de Cornélio, cuja história é contada duas vezes (At 10.1 – 11.18). A relevância desta conversão está na pessoa usada por Deus, Pedro, líder da missão judaico-cristã e não um cristão helenista. Recebe destaque também a conversão de gentios através do testemunho de cristãos helenistas e o surgimento da igreja em Antioquia como consequência destas conversõ  
  4. iv.12.25 – 16.5: Descrição da primeira expansão geográfica para dentro do mundo gentio através da liderança de Paulo. Os judeus passam a rejeitar o Evangelho abertamente, motivados pela presença de gentios entre os cristãos. A igreja de Jerusalém se reúne com Paulo e resolve não rejeitar os irmãos e irmãs gentios, nem impõem sobre estes exigências judaicas. Esta última decisão serve como chave para a plena expansão no mundo gentio.
  5. v.16.6 – 19.20: Descrição da continuação da expansão, sempre para o ocidente, ao mundo gentio, agora entrando na Europa. Repetidas vezes os judeus rejeitam o Evangelho ao passo que os gentios o recebem. Encerra-se esta seção com nova de que a “Palavra do Senhor” continuava sendo
  6. vi.19.21 – 28.31: Descrição que levam Paulo e o Evangelho a Roma, capital do Império e centro do mundo na época. Há muito interesse nos julgamentos de Paulo, no decurso dos quais três vezes é declarado inocente. O livro é encerrado com a continuação da expansão do Evangelho entre os gentios.

 

Esta divisão ajudará na leitura e na compreensão do “movimento” que acontece no livro de Atos. Esta divisão, no entanto, não deixa claro o principal ponto de destaque de Atos, mas esse destaque ficará claro na leitura das divisões. Ao ler, notaremos que a chave de Atos é o Espírito Santo e sua atuação na vida das comunidades e dos personagens, em especial sobre os líderes. Isso deixa claro que, de acordo com Lucas, esse movimento adiante não acontece através do esforço e designo humanos, mas acontece através do agir do Espírito Santo que faz a vontade de Deus.

 

            O propósito de Lucas

            Baseado no que vimos até aqui e naquilo que Lucas faz e deixa de fazer, além de muito cuidado, podemos destacar alguns pontos que fundamentam o propósito de Lucas ao escrever Atos.

            Primeiramente, podemos afirmar que o interesse de Lucas está no movimento orquestrado pelo Espírito que conduz o Evangelho, a partir de seus inícios em Jerusalém, orientados para o judaísmo, até chegar a Roma, alcançando o mundo gentio. Desta forma, a ação do Espírito e a missão aos gentios certamente marcam profundamente o propósito de Lucas. Esse interesse no movimento ganha força quando percebe-se o não interesse de Lucas na biografia dos apóstolos. Tiago é o único cujo fim ficamos sabendo (12.2). Essa é a razão de Pedro, após o movimento alcançar o mundo gentio, desaparecer da narrativa, reaparecendo apenas no capítulo 15, onde autentica a missão aos gentios. É o mesmo motivo que faz com que Paulo ganhe a cena, isto é, a missão aos gentios.

            Em segundo lugar, Lucas não apresenta interesse na organização e política da igreja. Os sete homens não são chamados de diáconos e deixam logo a igreja de Jerusalém após o martírio de Estevão. Lucas também não informa como ocorreu a mudança na liderança da igreja em Jerusalém, quando esta passou de Pedro e dos outros apóstolos para Tiago, “irmão do Senhor” (12.17; 15.13 e 21.18). Também não explica como as igrejas locais eram organizadas, apenas menciona a instituição de presbíteros (14.23).

            Em terceiro lugar, Lucas não menciona a expansão do Evangelho para outras regiões, tais como Bitínia, Ponto e Capadócia (1Pe 1.1), Creta (Tt 1.5) e Ilírico (15.19), além da expansão para o leste, em direção a Mesopotâmia e para o sul, em direção ao Egito. A única expansão mencionada é de Jerusalém para Roma.

            Destes fatos podemos afirmar que a simples história da igreja não era o propósito de Lucas ao escrever Atos.

            Importante também é o não interesse de Lucas em padronizar tudo de forma uniforme. Quando registra conversões individuais usualmente há dois elementos incluídos: o batismo e o dom do Espírito. Porém, estes podem aparecer na ordem invertida, com ou sem imposição de mãos, com ou sem menção de línguas e quase nunca com menção do arrependimento. Semelhantemente, Lucas não submete as igrejas gentias a viverem exatamente como a igreja em Jerusalém (cf. 2.42-47 e 4.32-35). Esta diversidade provavelmente significa que nenhum exemplo específico está sendo proposto como modelo único para a vida cristã e eclesiástica. A pergunta chave é: “O que Lucas queria dizer aos primeiros leitores?”

            Mesmo assim, podemos entender que a maior parte da narrativa tem o objetivo de servir como modelo à igreja. Mas este modelo não está tanto nos pormenores específicos e sim no quadro maior do livro. Observando a estrutura da narrativa podemos entender que a expansão triunfante, alegre e progressiva do Evangelho, através do poder do Espírito, resultando em transformação de vidas e o surgimento de comunidades locais é o grande objetivo de Deus para a igreja que continua existindo. A narrativa também deixa claro que nada pode impedir o avanço da igreja, nem mesmo o Sinédrio, a sinagoga, nem a dissensão, nem as mentes fechadas, nem prisões e nem mesmo o grande Império Romano. O propósito de Lucas era que a igreja fosse assim, no sentido global, não nos acontecimentos específicos.   

 

            Exercício

            Tomemos por base o texto de Atos 6.1-7. As perguntas que devem ser respondidas são: “Por que este texto (narrativa ou discurso) está aqui?”; “Qual o objetivo do autor com ele?”; e “Qual o papel deste texto na narrativa de Atos?”. Para responder a tais perguntas são necessárias algumas leituras do texto e do contexto anterior e posterior, além de fontes externas que contribuirão com informações acerca do contexto histórico e cultural (tente responder as perguntas antes de continuar a leitura).

            “Qual o papel deste texto na narrativa de Atos?” é possível responder com uma simples leitura. Primeiro, ele “fecha” a primeira seção do livro (1.1 – 6.7); e em segundo lugar, serve de transição para a próxima seção (6.8 – 9.31). O objetivo de Lucas na primeira seção do livro é apresentar a comunidade cristã que vive em Jerusalém e a expansão do Evangelho dentro de Jerusalém. O texto de Atos 6.1-7 inclui estes dois aspectos e ao mesmo apresenta a primeira tensão dentro da comunidade, tensão baseada em duas posições tradicionais dentro do judaísmo: os judeus de Jerusalém e de fala aramaica e os judeus da Diáspora de fala grega. O texto esclarece que na igreja essa tensão foi vencida através da instituição e reconhecimento oficial da liderança entre os judeus cristãos de fala grega.

            Com o auxílio de ferramentas externas (comentários, dicionários bíblicos e livros com informações históricas) temos acesso as seguintes informações que auxiliam a interpretação: Os helenistas do texto eram judeus de fala grega, isto é, da Diáspora (moravam fora da Judéia). Muitos helenistas voltavam para Jerusalém para morrer na cidade e ser enterrado próximo ao Monte Sião. Por não serem nativos, quando morriam suas viúvas não tinham meios de sobrevivência. Estas viúvas recebiam subsídios diários e este sustento causava peso econômico considerável em Jerusalém; os helenistas tinham suas próprias sinagogas, de acordo com 6.9 (da qual Estevão e Paulo participavam); o texto de Atos 6.1-7 deixa claro que o Evangelho teve grande alcance dentro dessas sinagogas, tendo em vista a expressão “viúva deles” e que os sete nomes levantados pela comunidade são gregos; os sete não recebem o nome de diáconos, mas simplesmente cuidam dos subsídios diários de alimento para as viúvas de idioma grego, mas também são ministros da Palavra, como atesta Estevão e Filipe.

            Além disso, o texto em questão prepara o terreno (papel) para a focalização de Estevão, figura chave na segunda seção do livro que descreve a expansão do Evangelho para fora de Jerusalém. Por causa do discurso e morte de Estevão, os judeus cristãos de fala grega deixam Jerusalém e isso resulta no avanço do Evangelho nas regiões da Judéia e Samaria. A afirmação de Jesus em 1.8 dá mais um passo.

            Desta forma, podemos afirmar que o interesse principal de Lucas em Atos 6.1-7 não é apresentar a organização da igreja, mas sim mostrar como a igreja avançou para fora de Jerusalém ao reagiu, preparar-se e responder a primeira tensão em seu meio e à perseguição.      

 

At 8.1: grande perseguição – At 11.19: gentios salvos/dispersos – At 14.27-28: gentios salvos

“Por esta atividade libertadora”.

 

Faithlife Study Bible (baixar)

NetBible

Bíblia.com/Bible.com

 



[1] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 79-97.