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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 16 (Evangelho)

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

EVANGELHO – AULA 16[1]

 

            Os quatro Evangelhos[2] são vistos pelos cristãos como a parte mais interessante da Bíblia, em especial do Novo Testamento. Isso porque narra a história de Jesus e relata seus ensinos. Porém, como todo gênero literário, também há os desafios na interpretação deste gênero. O principal deles provavelmente é o Reino de Deus.

 

A NATUREZA DOS EVANGELHOS

A maior parte das dificuldades que encontramos na interpretação dos Evangelhos baseia-se em dois fatores: (1) no fato de Jesus não ter escrito nenhum deles; (2) há quatro Evangelhos.

Caso Jesus escrevesse o seu Evangelho, provavelmente teríamos um livro muito parecido com o livro do profeta Amós, formado em sua maior parte por ditos e com algumas narrativas. Porém, como não foi Jesus quem escreveu nenhum dos Evangelhos,[3] estes são livros acerca de Jesus. É diferente, por exemplo, com o que aconteceu com o apóstolo Paulo. Este pode ser estudado em Atos e nas epístolas que escreveu. Caso você deseje encontrar e estudar situações na vida de Paulo, deve ler Atos e depois as epístolas. Caso deseje estudar o ensino de Paulo, deve estudar as epístolas e depois Atos. Porém, com Jesus isso não acontece, porque os Evangelhos narram alguns acontecimentos na vida de Jesus, e estes são preenchidos com blocos de ensino de Jesus. Entretanto, como protestantes reformados não vemos nisso um empecilho, mas entendemos que foi essa a maneira escolhida por Deus para nos revela o ministério terreno de Jesus.

A segunda dificuldade surge pela quantidade de Evangelhos: quatro (4). A pergunta que surge é: “Por que quatro Evangelhos?”. Isso fica mais claro diante do fato de que Marcos, por exemplo, é quase que todo “recontado” em Mateus e Lucas. Porém, assim como na parágrafo anterior, cremos que isso foi conduzido e concretizado pelo Espírito Santo. Temos quatro Evangelhos, porque foram escritos para quatro comunidades diferentes que necessitavam de aplicações do Evangelho diferentes. Um Evangelho escrito numa comunidade não satisfazia a necessidade de outra comunidade. Por isso quatro.

A tradição da igreja interpretou os textos de Ezequiel 1.10 e Apocalipse 4.7 como sendo representações dos Quatro Evangelhos. Segundo essa tradição a imagem de “homem” simboliza o Evangelho de Lucas, que é o mais próximo da cultura grega (cultura quem tem o homem em alta estima), pois Lucas é o único escritor que não tem ascendência judaica. A imagem de Leão representa o Evangelho de Mateus, pois este Evangelho é o que mais trata acerca do Reino de Deus. A imagem de boi (“novilho” em Apocalipse) representa o Evangelho de Marcos, pois este Evangelho trata de Jesus como o Servo Sofredor; já a imagem de ave representa o Evangelho de João, que é o Evangelho com a visão de Jesus “mais de cima”, baseada no que a teologia chama de “alta cristologia”. O primeiro Evangelho, segundo o maior número de opiniões, é o de Marcos. Este foi “reescrito” duas vezes[4] por razões diferentes com adições do documento Q (Mateus e Lucas).[5] João, em outra comunidade e vivendo situação diferente dos outros evangelistas, escreveu o seu Evangelho de maneira totalmente diferente dos outros. Desta forma, podemos afirmar que os Evangelhos já são um esforço hermenêutico por parte dos evangelistas, ao escreveram para suas comunidades. Isso deve nos levar ao mesmo exercício: ler os Evangelhos em nosso contexto vivencial. 

Para a igreja, nenhum Evangelho deve ser substituído por outro, mas todos são igualmente valiosos. Isso porque em cada caso o interesse por Jesus encontra-se em dois níveis: primeiro no histórico, na pessoa de Jesus, em seus feitos e ensino; em segundo o esforço existencial de repetir a história de Jesus para as necessidades das comunidades posteriores que viviam em ambiente totalmente diferente do ambiente encontrado por Jesus e seus apóstolos. Segundo Justino Mártir, os Evangelhos são “as memórias dos apóstolos” e embora não sejam biografias – mesmo com alguns traços deste gênero – podem ficar lado a lado, mesmo contando a “mesma história”, pois ao mesmo tempo registram os fatos acerca de Jesus, relembram o ensino de Jesus e cada um dá testemunho de Jesus.

 

 

 

O CONTEXTO HISTÓRICO

Nos Evangelhos encontramos dois contextos históricos: o contexto de Jesus e o contexto dos evangelistas. O contexto histórico de Jesus diz respeito a cultura, sociedade e religião do século I, com o judaísmo na Palestina e com os contextos específicos de um determinado dito ou parábola. O contexto histórico dos evangelistas diz respeito a situação em que viviam e quais razões os levaram a escrever o Evangelho da maneira como foram escritos. Essa é a natureza dos Evangelhos: documentos em dois níveis.

 

            O contexto histórico de Jesus – Geral

            Para uma boa leitura e interpretação dos Evangelhos é necessário conhecer os contextos sociais e culturais do judaísmo do século I. Para isso, além de uma leitura atenta dos próprios Evangelhos, é necessário o auxílio de livros de referência. Um bom livro que auxilia muito o intérprete é o livro “A Vida Diária nos Tempos de Jesus” de Daniel-Rops.[6] Além do conhecimento dos contextos históricos e culturais, é importante entendermos a forma do ensino de Jesus. O Senhor usou parábolas em seu ensino (e.g. Lc 15), hipérboles (e.g. Mc 9.43-48), provérbios (e.g. Mt 6.21 e Mc 3.24), símiles e metáforas (e.g. Mt 10.16), poesias (e.g. Mt 7.7-8 e Lc 6.27-28), perguntas (e.g. Mt 17.25), ironias (e.g. Mt 16.2-3) entre outras formas.

 

O contexto histórico de Jesus – Particular

O contexto histórico particular de Jesus são os contextos que circundam cada situação, evento, atitude ou dito de Jesus. Alguns são informados nos próprios textos, mas outros não. Por exemplo, o dito de Marcos 12.13-17 está num contexto claro, mas imagine a dificuldade de descobrir o contexto desse dito caso ele não fosse informado. Esse problema surge porque muitas histórias de Jesus foram transmitidas oralmente por décadas e muitos delas – a maioria – não informam os contextos. Isso acontece porque muitos textos (perícopes) estavam disponíveis aos evangelistas e estes, orientados pelo Espírito, usaram os textos de acordo com a sua intenção. Outro exemplo dessa realidade é o fato de Mateus dispor o Evangelho em cinco discursos de Jesus: (1) a vida no Reino (Mt 5 – 7); (2) as instruções para os ministros do Reino (10.5-42); (3) as parábolas do Reino em ação no mundo (13.1-52); (4) o ensino sobre relacionamentos e disciplina no Reino (18.1-35); (5) e escatologia, isto é, consumação desta Era e a chegada plena do Reino (Mt 23 – 26). Esses trechos são finalizados com algo como: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras [...]” (cf. Mt 7.28-29; 11.1; 13.53; 19.1 e 26.1). Lucas usa os mesmos ditos, mas não como Mateus: Lucas 9.2-5; 10.3; 21.12-17; 12.11-12; 6.40; 12.51-53; 14.25-27; 17.13 e 10.16. Isso sugere que Lucas teve acesso aos mesmos textos e usou conforme inspiração do Espírito. Essa análise ajuda a entendermos o objetivo do evangelista. Outra atitude importante é tentar descobrir qual público é o alvo nos textos. Pode ser os discípulos, multidões ou os oponentes de Jesus.

 

O contexto histórico do evangelista

Os Evangelhos não trazem a assinatura de seus autores e por isso baseamos nossas afirmações na tradição da igreja. Também não temos explicitamente o que motivou cada evangelista a escrever seu Evangelho. Podemos, no entanto, ter certeza razoável do interesse e das preocupações de cada evangelista ao observarmos sua maneira de selecionar, formar e dispor os textos. Os evangelistas são pregadores e por isso selecionam acontecimentos da vida de Jesus e seus ensinos guiados pelo seu propósito ao escrever, e isso naturalmente inspirados pelo Espírito. Por isso o material nem sempre está em ordem cronológica e sequencial, mas de acordo com o interesse dos evangelistas em seus leitores e ouvintes.[7]

Isso fica claro, por exemplo, no uso diferente que os evangelistas fazem de textos que apresentam a mesma história. Exemplo desse uso é o texto do paralitico baixado pelo telhado pelos amigos. Esse texto é contado por Marcos (2.1-12), por Mateus (9.1-8) e Lucas (5.17-26). Em Marcos o objetivo é demonstrar que Jesus tem autoridade e poder para perdoar pecados. Mateus utiliza o texto para tratar a respeito do discipulado. No contexto dos capítulos oito e nove há três relatos de curas (8.1-17; 8.23 – 9.8 e 9.18-34) seguidos de chamados ao discipulado (8.18-22; 9.9-13 e 9.35-38). Isso nos ensina que os sinais (milagres) devem nos levar ao discipulado. Já Lucas usa o texto para mostrar como o “programa messiânico” de Jesus, descrito na sinagoga de Nazaré (Lc 4.14-19), estava sendo cumprido na Galiléia, em Israel, mesmo depois que Israel rejeitara Jesus, como fizera com Elias e Eliseu.[8]   

Uma leitura atenta do Evangelho segundo Marcos deixará claro o interesse do evangelista na natureza do Messias Sofredor de Jesus, embora Marcos saiba que ele é o “Filho de Deus” (Mc 1.1). Por isso encontramos em Marcos o “segredo messiânico” (e.g. 1.34, 43; 3.12; 4.43; 7.24, 36; 8.26, 30). O motivo deste “silêncio” é que os discípulos e as pessoas curadas e libertadas por Jesus – em sua maioria – ainda não tinham plena consciência de quem é Jesus. Apenas ele mesmo sabia quem era e o que o esperava. Embora isso seja explicado três vezes aos discípulos (8.27-33; 9.30-32 e 10.32-45), eles não entendem e por isso são simbolizados pelo cego curado no segundo toque (8.22-26). Os discípulos precisam do “segundo toque” para entenderem quem é Jesus e esse “segundo toque” é a ressurreição do Senhor. Por causa do interesse de Marcos na natureza do Messias Sofredor, ele trata do discipulado somente após a primeira explicação do sofrimento do Messias (8.31-33). Com isso fica claro que as marcas do discípulo de Jesus são a cruz e a condição de servo. Esse é o contexto histórico do Evangelho segundo Marcos. Além disso, não há razão alguma para duvidarmos que este Evangelho reflete as “memórias de Pedro” e que surgiu em Roma após martírio e morte do apóstolo, num período de grande sofrimento entre os cristãos em Roma e provavelmente em todo o Império (cf. 1Pe 1.1-2).

 

Facções do judaísmo

Saduceus

Consideram-se a descendência verdadeira do sacerdócio legítimo (da linhagem do sumo sacerdote Sadoc dos tempos do Rei Davi). Apesar de conseguirem manter seu poder sobre o Sinédrio, o culto e o Templo através do sumo sacerdócio, tem que dividir com o espaço com os fariseus. No entanto, com a destruição do Templo, em 70 d.C., eles perdem seu valor social e desaparecem.

A fé saduceia é estritamente ligada à Tora, olhando com desconfiança e até desprezo os Profetas e os Escritos. Além de verem como heresia as influências de outros povos: temas como ressurreição, vida após a morte, anjos e demônios e inferno são, dessa forma, combatidos por essa seita. Além disso, a interpretação da Tora era largamente limitada, muitas vezes ao Templo (como nas prescrições sobre a pureza), deixando o espaço vago a ser preenchido pela liberdade pessoal, muitas vezes influenciada pelo helenismo.

 

Zelotas (Zelotes)

Seu nome vem de um termo grego que significa ser zeloso por. Surgem na época dos Macabeus (uma época de luta contra o domínio e influência cultural grega na região) e usam de extrema violência contra aqueles que se mostram infiéis à Lei mosaica e à busca de auxilio em pagãos (como o Império Romano) seja de qualquer tipo ao invés da plena e restrita confiança em Deus. Posteriormente, seus inimigos passam a ser quase que exclusivamente os romanos.

Creem que esta é uma batalha empreendida e a ser vencida por Deus, mas que este precisa de instrumentos humanos. Veem sua luta como algo que apressa a vinda do Messias e do Reino de Deus. A relação com os saduceus é complexa, quando convêm a esses há forte apoio (como no caso de Estevão em At 6.12s), mas geralmente os saduceus são vistos pelos zelotas como traidores por suas relações com os romanos.

Eram extremamente ortodoxos e integristas, contudo pertencem a uma classe baixa da população.

 

Fariseus

Tem sua origem relacionada no tempo da reconstrução do Templo pós-exílio e nas reformas de Esdras. Constituem um grupo politicamente discordante dos saduceus e zelotas e creem que todo seu esforço limita-se a ensinar o povo (principalmente nas sinagogas) e garantir o zelo pela vida religiosa, sobretudo no Templo, sendo muitos sacerdotes membros dessa seita.

Em sua maioria, provinham do povo, de famílias de artífices e mercadores. Possuíam grande interesse na educação das massas, embora, apenas uma parte tivesse formação de escriba e demonstravam uma vida de visível piedade, tornando-os preferidos pelo povo, o que lhes dava uma forte influência que devia ser respeitada até mesmo pelo sumo sacerdote.

No entanto, veem-se como separados do povo, por considerarem-se mais sábios na Lei e mais santos devido a sua maior obediência à Lei. É importante ressaltar que a Lei, na visão farisaica, constitui-se da Lei das Escrituras e da Lei Oral, vista como tão ou mais importante que a Lei escrita (o que gerou várias escolas de interpretação e um “sermão” de Jesus – Mt 5-7). Essa Lei Oral inicia-se com o escribismo e com a dificuldade dos exilados da Babilônia encontrar formas de responder as questões levantadas pelo confronto cultural, sendo, portanto, largamente influenciada por seu dualismo (anjos e demônios, céu e inferno...), pela crença na ressurreição dos mortos etc. Baseia-se em “midrashs” e métodos alegóricos de interpretação. É na obediência dessa(s) (duas) Lei(s) que se adquire os méritos para ser salvo.

Por sua forte ligação à sinagoga e sua identidade ligada ao ensino do povo, os fariseus são a única facção que consegue resistir à destruição de Jerusalém e do Templo, em 70 d.C.; e fazer renascer o judaísmo, em Jâmnia.

 

Essênios

A fé desse grupo tem semelhança maior com a fé farisaica do que com a saduceia. Em sua maioria refugiaram-se no deserto (cerca de 150 a.C.), buscando uma vida intensamente santa e purificada, abstendo-se de quaisquer elementos de impureza (inclusive o Templo, considerando-o impuro devido ao seu calendário alterado e a permissão de sumo sacerdotes não sadoquitas; ou seja de uma linhagem diferente da época do Rei Davi).

Creem na vida da alma após a morte e numa justiça pós-morte. Preparam-se religiosamente para ser o exército santo de Deus, o qual, junto com Seus anjos, aniquilarão os demônios e os ímpios. De fato, criam viver, na época de Jesus, em tempos escatológicos, apenas aguardando pacientemente a ordem (o chamado de batalha) de Deus, o qual talvez tenha “vindo” cerca de 66 a.C., visto só em 66-70 d.C se unirem aos zelotas em seu conflito contra Roma.

 

Herodianos

Eram partidários do rei Herodes e, por isso, possuíam cargos importantes como “funcionários públicos” da época. De acordo com a conveniência ora a apoiavam (pois extraiam dela parte de sua influência) ora a contrariavam a fim de manter sua influência sobre o povo.

 

CONTEXTO LITERÁRIO

O contexto literário tem a ver com o lugar de cada perícope no contexto de qualquer um dos Evangelhos. Até certo ponto esse contexto provavelmente é o mesmo contexto histórico original conhecido pelo evangelista, isto é, o evangelista usa o texto (história e/ou ensino) como Jesus usou, mas como já observamos, muitos textos (perícopes) recebem seu contexto de acordo com o propósito e objetivos dos evangelistas e inspiração do Espírito. Desta forma, através do contexto literário, vamos aprender a (1) fazer exegese e ler com entendimento uma perícope no presente contexto dos Evangelhos e (2) nos ajudará a entendermos a natureza da composição dos Evangelhos como sendo totalidade e assim interpretar qualquer um dos Evangelhos em si mesmo e não apenas fatos isolados da vida e ensino de Jesus.

 

EXERCÍCIO

Compare os textos paralelos de Mateus 23.37-39 e Lucas 13.34-35 e tente entender como cada evangelista usa os textos. Eles têm intenções diferentes ou semelhantes ao usarem tais textos?

Mateus usa o texto em questão como conclusão de sua coletânea de “ais” contra os fariseus, sendo que o último deles (23.29-36) reflete o tema de martírio dos profetas, mortos em Jerusalém. Em Lucas, o lamento pertence a uma longa coletânea de narrativas e ensino enquanto Jesus está a caminho de Jerusalém (9.51 – 19.10). O texto segue imediatamente após a advertência acerca de Herodes, que Jesus encerra com o seguinte dito: “[...], pois certamente nenhum profeta deve morrer fora de Jerusalém!” (Lc 13.33b).

Podemos concluir que Mateus e Lucas usam o texto acerca do lamento sobre Jerusalém com a mesma intenção: afirmar que a rejeição do mensageiro enviado por Deus resulta no julgamento de Israel.

 

Interpretando perícopes individuais

Ao lermos a Escritura, os Evangelhos no nosso caso, é necessário aprendermos a pensar em parágrafos e perceber os blocos quando existem. Para isso, especialmente nos Evangelhos, é necessário pensar horizontalmente e verticalmente.

Com isso queremos dizer que há duas realidades que sempre devem estar diante de nós ao lermos os Evangelhos: há quatro deles e eles estão em dois níveis, o nível de Jesus e o nível dos evangelistas.

Pensar horizontalmente é ler e estudar os Evangelhos com a consciência dos textos paralelos nos outros Evangelhos. Porém, é importante o cuidado de não “preencher” um texto de determinado Evangelhos com trechos de textos paralelos dos outros Evangelhos.

As razões para esse pensar são duas: perceber as diferenças entre os textos paralelos, em especial as omissões e adições do texto em estudo em comparação com os paralelos e perceber os contextos diferentes em que os “mesmos” textos são utilizados pelos evangelistas e foram assim assimilados pela igreja.

Um exemplo deste pensar horizontalmente encontramos nos relatos de Marcos 13.14, Mateus 24.15-16 e Lucas 21.20-21 que em paralelos fica da seguinte forma:

Mateus 24.15-16

Marcos 13.14

Lucas 21.20-21

Quando, pois, virdes

Quando, pois, virdes

Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exército, sabei que está próximo a sua

o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel

o abominável da desolação

devastação

no lugar santo

situado onde não deve estar

 

(quem lê, entenda)

(quem lê, entenda)

 

então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes

então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes

Então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes;

 

Devemos notar que nos três Evangelhos o texto está inserido na mesma sequência no Sermão do Monte das Oliveiras. Marcos escreve que “o abominável da desolação [está] situado onde não deve estar”. Já Mateus dá mais informações, lembrando seus leitores (possivelmente judeus convertidos) que Jesus cita um trecho do profeta Daniel (9.7; 11.31 3 12.11) e deixa claro o local: “no lugar santo”, isto é, no Templo de Jerusalém. Lucas, escrevendo para gentios, é mais objetivo e interpreta o dito interiro, para o benefício de seus leitores. O que Jesus queria dizer é: “Quando Jerusalém for cercada por exércitos, então saibam que está próxima a sua devastação” e cada evangelista usou o texto conforme objetivos e propósitos, inspirados pelo Espírito.

Dessa maneira podemos perceber como Mateus e Lucas usaram Marcos como fonte, mas escreveram segundo seus propósitos.  

            Pensar verticalmente é compreender o contexto histórico de Jesus e dos evangelistas. O contexto histórico de Jesus deve ser entendido antes do contexto do evangelista, sempre nos lembrando que nossas reconstruções da vida de Jesus não são fruto da inspiração divina.

            Em Mt 20.1-16 temos a parábola dos trabalhadores. O último versículo antes dela é Mt 19.30: “Contudo, muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos serão primeiros”. Este versículo aparece em Mc 10.31, mas o evangelho de Marcos não possui esta parábola. Este versículo tem ligação com esta parábola, pois esta termina com a repetição dele (em ordem invertida). Assim, o contexto imediato para esta parábola é a fala sobre os “primeiros e os últimos”.

            Quando atentamos para a parábola em si, Mt 20.1-15, vê-se que a mesma termina com uma fala do proprietário da vinha acerca de sua generosidade, a despeito do esforço (mérito) dos trabalhadores. Considerando o contexto histórico de Jesus, é razoável dizer que essa fala de Jesus trata da sua generosidade ao dar o mesmo Reino aos “justos” e aos pecadores que não haviam se esforçado, ao passo que os fariseus imaginavam-se merecedores de uma grande recompensa da parte de Deus, pois durante toda a sua vida se esforçaram para cumprir a Lei. Assim, a fala de Jesus em Mt 19.30 e 20.16, demarcam à ênfase que o evangelista quis dar a esta parábola: a generosidade de Deus para com os pecadores.

            Agora, como esta visão sobre o contexto histórico de Jesus, ajuda-nos a entender a função deste texto no Evangelho de Mateus? O contexto deste texto no evangelho de Mateus refere-se ao discipulado. Assim, o evangelista aplica esta parábola de Jesus aos discípulos, tratando-os como os “últimos” que se tornaram “primeiros” (em contraste aos líderes judaicos).

 

            Interpretando os Evangelhos como totalidades

            Um elemento importante do contexto literário é reconhecer quais são os interesses particulares de cada autor que moldaram cada Evangelho. Isso porque eles buscavam auxiliar comunidades específicas, sob a orientação do Espírito Santo. Isso fez com que eles selecionassem o material disponível (fatos sobre e ensinos de Jesus, testemunhos...) e os adaptaram dentro de limites aceitáveis (pelo Espírito e pela cultura da época), a fim de que as suas respectivas comunidades entendessem quem era Jesus, o que é ser cristão em seu contexto de vida e como tornar-se um cristão etc.

            Isso explica as diferenças entre os evangelhos. O relato sobre a pregação de João Batista em Lucas (capítulo 3) inclui orientações específicas sobre quais são os frutos que mostram o arrependimento (inexistente em Marcos e Mateus), as quais resumem-se na ajuda aos pobres e na não exploração destes (um dos temas significativos em Lucas). Da mesma forma, Marcos acrescenta nas promessas de Jesus aos que deixam tudo para o seguir, a perseguição (Mc 10.30), o que não aparece em Mt 19.29. Isso ocorre porque Marcos dirige-se a uma comunidade perseguida e quer animá-los a continuar firmes no Caminho de Jesus.

            Tais elementos também aparecem em maior escala. Em Marcos, há alguns temas muito importantes, sendo dois: a popularidade com as multidões e a oposição das autoridades. A primeira aparece em vários trechos do capítulo 1 (v.27-28, 32-33, 37, 45), sendo que o v.45 nos traz esse tema em nível mais expressivo que os anteriores. Este bloco traz como um de seus temas a rápida e crescente propagação da popularidade de Jesus.

            O segundo tema aparece nas quatro primeiras passagens do capítulo 2. Nelas a pergunta “Por quê?” se repete (v. 7, 16, 18, 24). Assim os motivos da oposição a Jesus pelas autoridades são apresentados neste capítulo.

 

            Observações hermenêuticas

            A primeiro observação hermenêutica importante a ser feita é com respeito a relação entre graça e a Lei nos Evangelhos, pois muitos ao lerem as palavras de Jesus no Sermão do Monte (Mateus 5 – 7), por exemplo, as compreendem e interpretação como Leis. Porém, devemos entender que em toda a Escritura, em especial nos Evangelhos, a graça de Deus se manifesta independente da Lei. Isso aconteceu no Antigo Testamento quando Deus prometeu a Abraão (cf. ensino de Paulo em Gl 3.1 – 4. 7) e quando, após ter livrado Israel do Egito, concedeu-lhes a Lei (Êx 20.1-2). Para a teologia reformada até mesmo a Lei do Antigo Testamento (Torá) é a manifestação da graça de Deus em favor de seu povo. Por isso, sempre devemos ler os Evangelhos na perspectiva da graça de Deus que resulta e exige obediência e não o contrário.

            A segunda observação importante para a correta leitura e interpretação dos Evangelhos diz respeito ao Reino de Deus anunciado por Jesus. O ensino a respeito do Reino de Deus promovido por Jesus está intimamente ligado a escatologia (teologia que trata do fim desta Era). Por isso, a forma como os judeus entendiam a manifestação do Reino de Deus e a igreja difere substancialmente. Devemos levar em consideração, entretanto, que os primeiros cristãos eram judeus.

            A escatologia judaica é dividida da seguinte forma:

 

ESCHATON

Esta Era: tempo de Satanás

Era do porvir: domínio de Deus

Características

Características

Pecado

Presença do Espírito

Enfermidade

Justiça

Possessão demoníaca

Saúde

Triunfo do mal

Paz

     

Desta forma, com o ministério de Jesus (acusação do pecado e convite de perdão, curas e exorcismos) e com a chegada do Espírito em Pentecostes, os primeiros cristãos – judeus – tinham plena convicção de que estar Era estava em seus últimos dias. Esse é o motivo que levou a igreja nos primeiros capítulos de Atos a venderem propriedades para o sustento de alguns irmãos, pois a comunidade passou de 120 pessoas para mais de três mil e muitos destes não moravam em Jerusalém, mas tinham subido à cidade para as festas da Páscoa e Pentecostes. Agora, na cidade, necessitavam comer, beber e morar em algum lugar.

Após esse período e com a volta de Jesus não acontecendo, a igreja passou a sofrer com algumas dúvidas e por isso foi necessário o desenvolvimento de uma nova escatologia, agora cristã, revelado por Deus aos escritores do Novo Testamento. A escatologia cristã é como segue:

 

ESTA ERA

ÚLTIMOS DIAS

ERA DO PORVIR

Cruz/Ressurreição

Iniciada           Consumada

Segundo vinda de Cristo

HOJE

AINDA NÃO

Justiça

 

Justiça completa

Paz

Tensão

Paz plena

Saúde

 

Sem enfermidade/morte

Espírito

 

Plenitude do Espírito

  

Desta forma, o Reino de Deus é a principal chave hermenêutica do Novo Testamento. Através da escatologia cristã entendemos que o ministério de Jesus é a anúncio do Reino, pois inaugura o Reino. O ministério de Jesus também gera a tensão entre o que já aconteceu e o que ainda não aconteceu. Assim, somos chamados a viver neste Reino, sob o senhorio de Jesus, redimidos e conforme a ética deste Reino e não da sociedade sem Deus. Também devemos aguardar ansiosamente a consumação deste Reino e orar: “Venha o teu Reino”.



[1] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 98-120.

[2] A palavra “Evangelhos” aqui faz referências aos quarto escritos canônicos que relatam a história de Jesus. 

[3] Não discute aqui a inspiração divina dos textos, mas o ato prático de escrever.

[4] O documento Q é apontando como outra fonte de Mateus e Lucas na composição desses Evangelhos.

[5] Estes (Mateus, Marcos e Lucas) formam os Evangelhos sinóticos, isto é, têm um ponto de vista comum.

[6] DANIEL-ROPS, Henri. A Vida Diária nos Tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 1983.

[7] Moisés Silva. KAISER, Walter C. e SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. [Trad. Paulo César Nunes dos Santos, Tarcízio José Freitas de Carvalho e Suzana Klassen]. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 102.  

[8] MATERA, Frank. Cristologia do Novo Testamento. [Trad. Jaime A. Clasen]. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 93.