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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 12 (Sabedoria)

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

SABEDORIA – AULA 12[1]

            A sabedoria hebraica é um gênero literário pouco familiar à maioria daqueles que habitam o ocidente, inclusive aos cristãos. Embora uma boa parte da Bíblia seja dedicada aos escritos sapienciais, os cristãos frequentemente entendem ou aplicam erroneamente este gênero literário, perdendo assim os benefícios que Deus destinara para eles. Quando devidamente interpretada, compreendida e aplicada, a sabedoria é muito útil para a vida cristã. Porém, quando mal interpretada, pode resultar num comportamento egoísta, materialista e míope.

            Três livros do Antigo Testamento são conhecidos como livros de sabedoria (ou “sapienciais”): Jó, Provérbios e Eclesiastes. Além disso, conforme estudamos na aula passada, também há Salmos de Sabedoria. Nessa aula, entretanto, vamos nos ater nos três livros citados, em especial aos livros de Provérbios e Eclesiastes.  

 

            A NATUREZA DA SABEDORIA

            O que é sabedoria? Sabedoria é a disciplina de aplicar a verdade à vida, à luz da experiência.

 

            O abuso da literatura da Sabedoria

            Tradicionalmente, os livros de Sabedoria têm sido abusados de três maneiras:

O primeiro erro é que geralmente se lê parcialmente esses livros. Fazendo assim deixam de perceber que há uma mensagem global de acordo com as intenções do autor inspirado. Pequenos trechos lidos separados podem parecer profundos e práticos, mas podem também ser facilmente interpretados e aplicados de modo incorreto. Um exemplo é o texto de Eclesiastes 3.2: “Tempo de nascer e tempo de morrer [...[”. Muitos entendem que este texto diz respeito a proteção de Deus, que cuida de cada um e sabe da duração de nossa vida. Porém,  o texto ensina de forma cínica acerca da futilidade da totalidade da vida, isto é, não importa quão má ou boa seja sua vida, no tempo certo a morte chegará.

Em segundo lugar, muitos entendem mal os termos e categorias usadas na literatura de Sabedoria, bem como os estilos e modos literários sapienciais. Desta forma interpretam mal o texto. Um exemplo desse erro encontramos em Provérbios 14.7:

Mantenham-se longe do tolo,

pois você não achará conhecimento no que ele falar”.

 

A ARA[2] traduz “tolo” como “insensato”. Muitos entendem que o texto exige que os cristãos se afastem daqueles que sofrem de problemas mentais ou dos incultos. Porém, longe disso, o texto ensina que não encontraremos sabedoria na fala do “tolo”, que geralmente significa “incrédulo”. Assim, “tolo” é todo aquele que não crê no Senhor e vive de acordo com seus caprichos egoístas de auto-satistação e não reconhece nenhuma autoridade sobre ele.

O terceiro erro é quando a linha argumentativa não é seguida no discurso sapiencial. O resultado geralmente é o contrário do propósito do texto. Considere Jó 15.20:

O ímpio sofre tormentos a vida toda,

como também o homem cruel, nos poucos anos que lhe são reservados.

           

            Muitos interpretam esse versículo como uma afirmação de que o ímpio nunca será feliz. Porém, temos que levar em consideração que se trata de um discurso de Elifaz, “consolador” de Jó. Através desse discurso Elifaz tenta convencer Jó que seu sofrimento é resultado de sua perversidade. Jó nega tal afirmação e o próprio Deus, mais adiante no livro, confirmará as palavras de Jó. O Livro de Jó afirma e ensina que o justo também sofre, assim como o ímpio pode ser feliz. Porém, para chegar a tal conclusão é necessário entender a linha de argumentação.

 

            Quem é sábio?

            A Sabedoria no Antigo Testamento e consequentemente entre os judeus não é um simples conceito ou uma ideia, mas uma prática. Por isso há um lado pessoal na sabedoria. A sabedoria cristã, portanto, não é algo teórico ou abstrato, mas prático e concreto e torna-se real quando uma pessoa pensa e age de acordo com a verdade conforme apreendida através do ensino e da experiência. Por isso, o Antigo Testamento reconhece que há pessoas mais sábias que outras e que há pessoas que se dedicaram de tal modo à obtenção da sabedoria do que outras, que se tornaram sábias (chakam no hebraico). A pessoa sábia era altamente prática e não apenas teórica. O alvo da sabedoria é sempre uma vida bem sucedida. Em algumas ocasiões a sabedoria é concedida por Deus para tarefas específicas, como por exemplo, a construção do tabernáculo por Bezalel (cf. Êx 31.1-5). Líderes políticos geralmente buscavam a sabedoria para promover o bem de seus liderados. Assim aconteceu com Josué (Dt 34.9), Davi (2Sm 14.20) e Salomão (1Rs 3.9).        

            A literatura sapiencial, portanto, tende a focalizar-se nas pessoas e no seu comportamento, no seu sucesso em aplicar as verdades e naquilo que aprendem ou não através do ensino recebido e através das experiências. Não é tanto o caso de as pessoas procurarem aprender ser sábias, mas, sim, de procurarem ficar sábias. Qualquer pessoa que procura diariamente aplicar a verdade de Deus e aprender da sua experiência ficará sábia. Porém, a sabedoria não pode ser desejada e alcançada em benefício pessoal, mas sim para a glória de Deus e a promoção da vida pessoal e comunitária.

 

            Mestres da sabedoria

            No Israel antigo algumas pessoas não se dedicavam apenas em obter a sabedoria, mas também em ensiná-la a outras pessoas. Essa classe de sábios e sábias surgiu aproximadamente no ano 1000 a.C. no início da monarquia em Israel conforme atesta o texto de 2Samuel 14.2: “[...] mandou buscar uma mulher astuta em Tecoa, e lhe disse [...]”. “Astuta” é melhor traduzido por “sábia” (~k'x] - chakam). Desde então, eram considerados como tais entre o povo (“Então disseram: ‘Venham! Façamos planos contra Jeremias, pois não cessará o ensino da lei pelo sacerdote nem o conselho do sábio nem a mensagem do profeta. Venham! [...]” Jr 18.18) e serviam como conselheiros-ensinadores àqueles que procuravam sabedoria. Alguns foram inspirados por Deus a escreverem o que resultou nos livros de sabedoria que encontramos na Escritura. Nesses escritos, notamos que o sábio/ia assumia o papel de pai/mãe para aqueles que o procurava. É por isso que Débora é reconhecida como “mãe de Israel” (Jz 5.7):

Já tinham desistido os camponeses de Israel,

já tinham desistido,

até que eu, Débora, me levantei;

 levantou-se uma mãe em Israel

            Esse também é o motivo de encontramos referências semelhantes no Livro de Provérbios: “Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe” (1.8); “Meu filho, se os maus tentarem seduzi-lo, não ceda!” (1.10); “Meu filho, não vá pela vereda dessa gente! [...]” (1.15); “Meu filho, se você aceitar as minhas palavras e guardar no coração os meus mandamentos [...]” (2.1); “Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos [...]” (3.1); “Ouçam, meus filhos, a instrução de um pai; estejam atentos, e obterão discernimento” (4.1), etc.

            Em Provérbios encontramos a sabedoria proverbial, enquanto em Eclesiastes, por exemplo, encontramos a sabedoria especulativa, que é formada através de longos discursos e argumentos, sejam monólogos ou diálogos.  

 

            A sabedoria no lar

            Conscientes ou não os pais frequentemente aconselham os filhos com sabedoria. Quando dizem para “não beberem muito gelado, pois podem ficar resfriados” ou “levar guarda-chuva, pois pode chover”, os pais estão tentado passar conselhos sábios aos filhos. Essa prática era e é muito comum entre os judeus. Importante notar que a sabedoria judaico/cristã, como já afirmamos, é prática e serve para a vida, porém a característica mais importante desta sabedoria é que ela está sob o temor do Senhor (“O temor do Senhor é princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina” Pv 1.7). Isso é o que diferencia a sabedoria judaico/cristã de outras formas de sabedoria e faz dela a verdadeira sabedoria.

 

            A sabedoria expressada através da poesia

            Como já vimos em aulas passadas, o poesia é mais facilmente memorizável e consequentemente apreendida. Os Salmos e a maior parte dos profetas estão em forma poética exatamente por esse motivo. Não é diferente com a literatura sapiencial. Os Livros de Jó, Provérbios e Eclesiastes foram escritos em forma poética para facilitar a memorização e o aprendizado da Sabedoria. Entre as técnicas específicas usadas encontramos o paralelismo sinônimo (Pv 7.4), antitético (Pv 10.1), acróstico[3] (Pv 31.10-31),  a aliteração[4] (Ec 3.1-8), sequências numéricas (Pv 30.15-31) e incontáveis comparações (tais como símile e metáforas - e.g. Jó 31.19). Outras técnicas usadas na literatura sapiencial são: parábolas formais, alegorias e enigmas.[5]

 

            Os limites da sabedoria

            A busca pela Sabedoria não era privilégio apenas de Israel. Em todo o Oriente Próximo antigo havia sábios sustentados frequentemente pelas famílias reais para colecionar, compor e refinar provérbios e discursos de sabedoria. Boa parte dessa sabedoria assemelha-se a Sabedoria israelita, mas nem toda sabedoria é piedosa e ortodoxa. Somado a isso, como a Sabedoria é extremamente prática, não abrange a totalidade da vida humana e não toca em questões teológicas e históricas. Outro fator que deve ser destacado é o fato de que a sabedoria pode ser usada para o mal, como foi usada por Jonadabe no conselho a Amnom (“Amnom tinha um amigo muito astuto chamado Jonadabe, filho de Siméia, irmão de Davi” 2Sm 13.3 – “muito astuto” é a mesma palavra para “sábio” usada no Antigo Testamento). Salomão, provavelmente o homem mais sábio que já existiu (cf. 1Rs 3.3-15 e 4.29-34), consegui poder, riqueza e fama através de sua sabedoria, mas deixou-a e terminou a vida de forma terrível (“À medida que Salomão foi envelhecendo, suas mulheres o induziram a voltar-se para outros deuses, e o seu coração já não era totalmente dedicado ao Senhor, o seu Deus, como fora o coração de seu pai Davi” 1Rs 11.4). A sabedoria só é Sabedoria quando é obediente ao Senhor.     

 

            ECLESIASTES: A SABEDORIA CÍNICA

            Eclesiastes é um monólogo sapiencial perturbador àqueles que o lêem com atenção. Outros, por causa de uma leitura superficial, descartam o livro por entender tratar-se de algo difícil demais para entender e aplicar. Porém, mesmo aqueles que estudam este livro com atenção podem ver-se confusos, tamanho a realidade tratada em suas páginas, pois o Pregador não trata os temas de forma positiva e encorajadora. Pelo contrário, a maior parte do livro afirma que a vida está destituída de sentido e que por isso as pessoas devem usufruir o máximo de seus dias, pois a morte virá e aniquilará todas as coisas. Encontramos essas conclusões em alguns textos, tais como:        

 

Vaidade de vaidades, diz o Pregador;

vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” (1.2)

 

Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol,

e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento.” (1.14)

 

Porque o que se sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade.” (3.19)

 

            Segundo o Pregador, a morte é nivaldora de todas as criaturas e ela faz com que tudo seja sem sentido, visto que todos, seres humanos e animais, morrerão. Essa afirmação é muito parecida com o ensino do existêncialismo moderno, como podemos comparar nas seguintes frases: Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.” (Nietzsche)[6]; Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.” (Alberto Camus)[7]; “Cada homem deve descobrir o seu próprio caminho[8] (Sartre) e Então, exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol.” (Ec 8.15).

            Em outros trechos o livro de Eclesiastes parece contradizer algumas afirmações do próprio Antigo Testamento. Por exemplo, parece negar a vida após a morte (“Pois, tanto o sábio como o estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto!” 2.16), e outros aspectos-chave como a justiça (“Não seja demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?” 7.16). A pergunta que surge diante desses fatos é: Então, por que, Eclesiastes está na Bíblia? A respostas, de acordo com Fee e Stuart, é que o livro de Eclesiastes é um contraste com o restante da Bíblia. Isso fica claro no final do livro:

De tudo o que se tem ouvido, a suma é:

Teme a Deus e guarda os seus mandamentos;

porque isto é o dever de todo homem.

Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras,

até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más.” (12.13-14).

 

A maior parte do livro apresenta a vida encarada por aqueles que não temem ao Senhor e por isso não têm a Deus como aquele que concede sentido a vida humana -  e a morte – e a tudo o mais. É uma receita para uma vida deísta[9] que não crê na vida após a morte. Essa é a constatação do velho Salomão[10] ao final de sua vida. Hoje podemos afirmar que se trata de uma vida baseada no ateísmo. Desta forma, Eclesiastes é um instrumento de evangelização, pois apresenta a falência de uma vida sem Deus. O caminho verdadeiro apontado por Eclesiastes está fora de suas páginas: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos [...]”. “Temer” ao Senhor (cf. Pv 1.7) e guardar os “mandamentos” de Deus (cf. Sl 19.8b) são as respostas de Eclesiates à vida humana.   

            Para entender melhor este livro é necessário identificarmos as palavras-chave.[11] A primeira e mais importante é “vaidade”. Esta palavra ocorre setenta e duas (72) vezes no Antigo Testamento e apenas em Eclesiastes ocorre trinta e sete (37) vezes. Seu uso em Eclesiastes é destacado pelo refrão havel havalim (“vaidades de vaidades”). A repetição seguida é a forma do hebraico trabalhar o superlativo.[12] Literalmente significa “vapor; fôlego”, mas no livro ganha o significado de “inútil” e “vão”.[13]  Interessante destacar que há um sinônimo dessa palavra (ruwach), porém essa palavra é usada no Antigo Testamento como referência ao Espírito de Deus (e.g. Gn 6.3) ou ao espírito humano. Será proposital esse uso e essa omisão? A única ocorrência de ruwach em Eclesiates encontra-se em 12.7. A segunda palavra-chave é “trabalho”. Em todo o Antigo Testamento ocorre cinquenta e cinco (55) vezes e em Eclesiastes ocorre vinte e duas (22) vezes. A terceira palavra-chave é “sol”. Ocorre cento e trinta e quatro vezes (134) no Antigo Testamento e trinta e cinco vezes em Eclesiastes. Em grande parte das ocorrências o sentido é delimitar e situar o campo de observação do sábio. Diz respeito ao que acontece aqui e tem relações com o valor e o sentido ou a falta de sentido da vida. 

 

            PROVÉRBIOS: A SABEDORIA PRUDENCIAL

            O Livro de Provérbios é a fonte por excelência da sabedoria prudencial, sabedoria que contém regras e normas que ao serem obedecidas conduzem a uma vida responsável e bem sucedida. Ao contrário de Eclesiastes que emprega o cinismo especulativo e de Jó que usa a sabedoria especulativa para entender a justiça e a injustiça neste mundo, Provérbios concentra-se em atitudes práticas. Provérbios é uma coletânea de declarações incisivas de conselhos visando promover a vida de pessoas felizes, bem sucedidas, envolvidas socialmente, sem problemas com as leis, moral e com recursos. São padrões que se seguidos, geralmente resultarão numa vida mais digna, justa e feliz.   

            Provérbio usa do contraste para ensinar a sabedoria. Contrasta a vida sábia com a vida tola. A vida tola é caracterizada pela violência (1.10-19; 4.14-19), o desleixo em promoter e depois não cumprir o prometido (6.1-5), a preguiça (6.6-11) a desonestidade maliciosa (6.12-15) e a impureza sexual (2.16-19; 5.3-20; 6.23-35; 7.4-27; 9. 13-18; 23.26-28). Além desses contrastes, Provérbios ensina a sabedoria ao promover o cuidado dos pobres (22.22, 27), o respeito para com os governantes (23.1-3; 24.21-22), a importância de disciplinar os filhos (23.13-14), a moderação no consumo de álcool (23.19-21; 29 – 35) e o respeito aos pais (23.22-25).

            Interessante e pertinente destacar que a linguagem usada em Provérbios raramente é “religiosa”. Há esse tipo de linguagem (1.7; 3.5-12; 15.3, 8-9, 11; 16.1-9; 22.9, 23; 24.18, 21; entre outros), mas não predomina. Isso nos ajuda a corrigir o falso pressuposto de espiritualizar tudo, como se houvesse algo errado com o mundo material. Isso nos faz lembrar que o Senhor, após criar todas as coisas (inclusive físicas!) afirmou que tudo era muito bom (Gn 1.31 – “bom bom” no original, que significa excelente).    

            Em hebraico o livro de Provérbios é chamado de meshallim e significa “figura de linguagem”, “parábola” ou “ditados especialmente elaborados”. Um Provérbio é uma expressão breve e específica de uma verdade. Essa forma tem como objetivo a fácil memorização, o que não acontece com longas sentenças. Grande parte dos provérbios contém algum tipo de ritmo na lingua original (hebraico), repetição de sons ou qualidades do vocabulário que os tornam especialmente fáceis de serem aprendidos. Isso também acontece com alguns provérbios populares que conhecemos. Seguem-se alguns exemplos:

“É melhor prevenir do que remediar.”

“A noite todos os gatos são pardos.”

“A rapadura é doce, mas não é mole não.”

           

Desta forma, os Provérbios não declaram toda a verdade, mas apontam em direção à ela. Essa é a razão porque não devemos interpretar literalmente os provérbios. Examinemos o caso de Pv 6.27-29:

Tomará alguém fogo no seio,

sem que as suas vestes se incendeiem?

Ou andará alguém sobre brasas,

sem que se queimem os seus pés?

Assim será com o que se chegar à mulher do seu próximo;

não ficará sem castigo todo aquele que a tocar.

 

            O texto em questão trata de qualquer aproximação de uma mulher? Se trata-se de aproximação adúltera, não há amantes que adulteram e nada acontece? Tais interpretações, no entanto, não vem ao caso, pois os Provérbios empregam linguagem figurada e expressa sugestivamente ao invés de detalhadamente. O que o texto acima ensina é que o adúltero “mexe com fogo”, pois quebra a Lei (Êx 20.14) e por isso será castigado aqui e/ou na eternidade. Desta forma as palavras “chegar” e “tocar” são eufemismos.[14] É a mesma expressão usada pelo apóstolo Paulo em 1Coríntios 7.1.

            Outro exemplo encontra-se em Pv 9.13-18 (leia e tente interpretar). Este trecho é uma alegoria. A loucura, o oposto da sabedoria, é personificada como uma prostituta que tenta seduzir aqueles que passam a entrarem em sua casa. Os “simples” ou “tolos” são facilmente seduzidos por atos insensatos e proibidos. O resultado ao ceder à loucura é a morte. Assim, podemos afirmar que o ensino deste trecho é: “Fique longe da insensatez!”.

            O terceiro exemplo encontramos em Pv 16.3 (leia e tente interpretar). Este Provérbio é frequentemente mal interpretado. Muitos, com  base nesse versículo, fazem planos e “dedicam ao Senhor” exigindo depois que sejam bem sucedidos. Outros, ao fazerem “tudo certo” e não obtem o esperado, se revoltam contra Deus. Porém, o verso em questão não diz que tudo o que confiarmos ao Senhor será bem sucedido. O ensino é que vidas dedicadas a Deus e vividas de acordo com a Sua vontade têm sucesso conforme a definição de sucesso de Deus e não da sociedade atual.

 

DIRETRIZES HERMENÊUTICAS

            Seguem-se algumas diretrizes para compreendermos a sabedoria na forma de provérbios.

  1. 1.Não são garantias legais da parte de Deus

Os Provérbios não são partes de um contrato entre nós e Deus, não são garantias legais da parte de Deus. Não é pelo fato de entendermos o ensino e aplicá-lo que tudo dará certo em nossas vidas. Ao serem obedecidos temos grande possibilidade de êxito naquilo que fizermos. Em lugar algum Provérbios ensina o sucesso automático.Como exemplos podemos usar Provérbios 22.26-27:

Não estejas entre os que se comprometem

e ficam por fiadores de dívidas,

pois, se não tens com que pagar,

por que arriscas perder a cama de debaixo de ti?

           

Se entendermos literalmente esses versos como garantias legais, nunca faremos dívidas. Porém, como conseguirmos casas e/ou carros, por exemplo, sem financiarmos? O que esses versos ensinam é que dívidas devem ser asumidas com cautela, porque a conbrança pode ser pesada.

 

 

 

 

  1. 2.Devem ser lidos como uma coletânea

Cada provérbio inspirado deve ser equilibrado com outros provérbios e em comparação com o restante da Escritura.[15] Quanto mais isoladamente lermos um provérbios, maior o risco de o interpretarmos mal. O Livro de Provérbios é inspirado, é Palavra de Deus e por isso deve ser interpretado à luz da Escritura. Exemplo: Provérbios 21.22:

O sábio escala a cidade dos valentes

e derriba a fortaleza em que ela confia.

 

            Este verso não diz que o sábio é burro e invade a cidade do valente, mas que a sabedoria é mais forte que a força física e/ou militar. É uma declaração hiperbólica. Chegamos a essa interpretação ao usarmos trechos como Pv 1.1-6; capítulos 2 e 8 e 22.17-29.

 

  1. 3.Redação facilmente memorizáveis, não teoricamente acurados

Os provérbios usam figuras de linguagem e ritmos com o objetivo de memorização. Por isso, não devemos lê-los literalmente, pois não são uma declaração completa da verdade. Exemplo: Provérbio 15.19:

O caminho do preguiçoso é como que cercado de espinhos,

mas a vereda dos retos é plana.

 

            Este verso não fala literalmente em qual caminho andará o preguiçoso e o reto (i.e. justo), mas quais serão as consequencias na vida do preguiçoso e na vida do justo.

 

  1. 4.Alguns provérbios devem ser “traduzidos” para serem apreciados

Boa parte dos provérbios expresam verdades nos contextos de práticas e instituições do Antigo Testamento e que já não existem mais. Por isso é necessário a “tradução”, isto é, o uso de equivalentes modernos verdadeiros – essa tarefa deve ser realizada com bastate critério e cuidado. Neste caso nosso exemplo é Pv 25.24:

Melhor é morar no canto do eirado,

do que junto com a mulher rixosa na mesma casa.

            Nos tempos bíblicos as casa tinham telhados planos e alojar-se neles não somente era possível, como era comum. Porém, hoje os telhados são construidos de forma diferente. Desta forma, podemos “traduzir” este provérbio da seguinte maneira: “É melhor morar numa garagem do que numa casa espaçosa com uma mulher briguenta”. Aqui uma informação é necessária: o Livro de Provérbios é direcionado à jovens que estão no início da vida, mas claro que sempre nos servirá como Palavra de Deus. O provérbio não pretende sugerir que você, caso seja um homem e tenha casado com uma “mulher rixosa” durma “na garagem”, mas aconselha o cuidade na escolha do cônjuge. Este conselho é universal.  

           

A SABEDORIA NO NOVO TESTAMENTO

Assim como outros assuntos como amor, misericórdia, paz e liberdade, a sabedoria ganha novos contornos no Novo Testamento. Estes deixam de ser conceitos e passam a ser entendidos como uma pessoa: Jesus. Não há dúvida disso. A matemática é a seguinte: a sabedoria que responde a cerca da justiça/injustiça de Jó soma-se a sabedoria prática/prudente de Provérbios; a seguir soma-se mais a sabedoria cínica de Eclesiastes que ensina acerca do sentido único da vida humana em Deus. O resultado é Jesus no Novo Testamento. 

Logo no início da vida de Jesus, o evangelista Lucas deixa claro que a sabedoria estava em Jesus:“Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52). Durante seu ministério, em especial em seu ensino, Jesus demosntrou a sabedoria do Antigo Testamento na prática e isso espantou as pessoas: “Chegando a sua cidade, começou a ensinar o povo na sinagoga. Todos ficaram admirados e perguntavam: ‘De onde lhe vêm está sabedoria e estes poderes miraculosos?’” (Mt 13.54).

Mais tarde, após a morte, ressurreição e assunção do Senhor, a igreja passou a entender que sabedoria não se tratava mais de um conceito, mas de uma pessoa. Paulo, o apóstolo, entendeu isso e escreveu à igreja de Colossos: “Nele [i.e.em Cristo] estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”. (Cl 2.3). A sabedoria não está em livros ou mestres humanos, mas no Deus vivo. Por isso, ao lermos a descrição da sabedoria feito por Tiago, constatamos tratar-se de qualidade de seguidores e seguidoras de Jesus e nada mais: Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores”. (Tg 3.17-18). O texto que concluí nossa análise da sabedoria no Novo Testamento é 1Cor 1.18 – 2.16. Neste texto, Paulo deixa claro quem é a Sabedoria de Deus: o Senhor Jesus Cristo.

Diante deste ensino podemos afirmar seguramente que na Nova Aliança alcançamos a Sabedoria através de nosso relacionamento com Ele.   

 

 

 

 

 

 



[1] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 196-216.

[2] ARA = Almeida Revista Atualizada.

[3] Composição poética em que as letras iniciais, mediais ou finais de cada verso, reunidas, formam um nome de pessoa ou coisa, tomado como tema. (michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua= português-portugues&palavra=acróstico)

[4] Na poesia é a repetição das mesmas letras ou das mesmas sílabas, no início das palavras que constituem uma fórmula tradicional, um anexim, um verso. (michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua =portugues-portugues&palavra=aliteração).

[5] Dito ou fato de difícil interpretação; Descrição metafórica ou ambígua de uma coisa, tornando-a difícil de ser adivinhada; Aquilo que dificilmente se compreende: O co­ração da mulher é um enigma. (http://michaelis. uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=enigma.

[6] www.fraseseproverbios.com/frases-de-nietzsche.php

[7] pensador.uol.com.br/autor/albert_camus/

[8] www.frasesfamosas.com.br/de/jean-paul-sartre.html

[9] Crença em um Deus impessoal, que criou todas as coisas e depois se afastou de sua criação.

[10] Outros estudiosos defendem a autoridade de um sábio judeu desconhecido da era pós-exílica. In: BROWN, R. E., FITZMYER, J. A. e MURPHY, R. E. (Editores). Novo Comentário Bíblico São Jerônimo. Antigo Testamento. [Trad. Celso Eronides Fernandes]. São Paulo: Ed. Academia Cristã e Paulus, 2007, p. 967. Kivitz adiciona a esta posição o argumento de que muitos textos citados em Eclesiastes remetem à Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento datada em 250 a.C). Não fica claro sua posição. In: KIVITZ, Ed René. O livro mais mal-humorada da Bíblia: A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, pp. 11-12, 19.    

[11] Kivitz cita Paulo José Freitas de Oliveira, que destaca tais palavras-chave. In: KIVITZ, 2009, p. 12.

[12] KIVITZ, 2009, p. 18; BROWN, FITZMYER e MURPHY, 2007, p. 970. .

[13] KIVITZ, 2009, p. 12.

[14] Figura de retórica pela qual se suavizam expressões tristes ou desagradáveis empregando outras mais suaves e delicadas.

[15] Princípio reformado de interpretação: A Escritura interpreta a Escritura. Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1 – Da Sagrada Escritura – parágrafo IX.