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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 10 Profetas

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

AULA 10

 

EXERCÍCIO: Analise a Lei abaixo e responda:

  1. Por que é ou não é mandamento para você?
  2. Como interpretá-lo como Palavra de Deus?

 

Respeite cada um de vocês a sua mãe e o seu pai, e guarde os meus sábados. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês” (Lv 19.3)

Há dois mandamentos neste verso que remetem ao Decálogo (Êx 20.12 e 8, 9, 10). O primeiro diz respeito a relação dos filhos com os pais (Respeite cada um de vocês a sua mãe e o seu pai”). Esse mandamento é reafirmado e renovado pelo Novo Testamento: “Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. ‘Honra teu pai e tua mãe’ – este é o primeiro mandamento com promessa – ‘para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra’” (Ef 6.1-3). Por isso, esse primeiro mandamento continua sendo mandamento para os cristãos e consequentemente Palavra de Deus, pois deve ser obedecida.

O segundo mandamento diz respeito a guarda do sábado (“[...] e guarde os meus sábados. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês”). Esse mandamento foi tema de muitas controvérsias entre Jesus e os fariseus (e.g. Mc 2.23 – 3.6 e Lc 13.10-17). O Novo Testamento, especificamente o Senhor Jesus, não invalidam o sábado, mas o concede uma nova perspectiva: “E então lhes disse: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado” (Mc 2.27-28). Interpretando a Lei pela “letra da Lei” os fariseus valorizavam mais a guarda do sábado em detrimento das pessoas, mas o sábado foi instituído justamente para as pessoas. A instituição do sábado surge na Criação (Gn 2.2-3) e foi instituído como Lei à Israel após a libertação do Egito (Êx 20.8-10). Durante a peregrinação no deserto, os israelitas não deveriam colher maná no sábado, pois na sexta-feira Deus mandaria maná em dobro. Desta forma, o sábado testemunha a confiança no sustento que vem de Deus (“Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês”) e um tempo de restauração física, emocional, mental e espiritual para as pessoas (ler Jr 17.19-27). A guarda do sábado não é mandamento para os cristãos hoje, mas é Palavra de Deus, pois nosso sustento deve continuar dependendo do Senhor (cf. Mt 6.25-34) e devemos reservar um dia na semana para o descanso e restauração. A Igreja Primitiva transferiu a importância do sábado para o domingo, dia da ressurreição do Senhor Jesus.      

 

Não cortem o cabelo dos lados da cabeça, nem aparem as pontas da barba” (Lv 19.27).

            Cortar o cabelo dos lados da cabeça e aparar apenas as pontas da barba eram práticas pagãs de luto dos povos de Canaã (cf. Dt 14.1-2). Essa prática, de alguma maneira, objetivava beneficiar o ente falecido.[1] Desta forma o mandamento visa evitar a semelhança com essas práticas. Como Palavra de Deus, este verso nos ensina que não devemos nos amoldar ao secularismo (paganismo hoje). Atualmente isso está mais relacionado a conduta do que a aparência. Um exemplo são pessoas que professam a fé em Jesus Cristo, mas vivem de modo contrário ao ensino e a vida do Senhor.

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

OS PROFETAS[2]

            Os livros proféticos são os que mais aparecem na Escritura. Nenhum outro gênero literário tem tantos livros individuais quanto esse. Ao total são 17 livros divididos entre profetas maiores (Isaías, Jeremias/Lamentações e Ezequiel) e profetas menores (Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias). A nominação maiores/menores nada tem a ver com a importância, mas simplesmente com o tamanho dos livros. Estes livros foram escritos em Israel entre os anos de 760 a.C. a 460 a.C. e contém uma vasta coletânea de mensagens de Deus ao seu povo no Antigo Testamento.

            A profecia está entre os textos mais difíceis de serem lidos e interpretados corretamente. As razões disso estão relacionadas à sua função e forma. Porém, antes de entrarmos nessa discussão, vamos entender o significado da profecia.

 

O Significado da Profecia

            A primeira dificuldade dos leitores atuais das profecias está na origem da compreensão prévia errada da palavra profecia. Para a maioria das pessoas, o significa é o apresentado pelos dicionários: prenúncio ou predição daquilo que está para vir. Isso gera a ideia de que os profetas somente fazem anúncios futuros acerca da vinda de Jesus e certos aspectos da Nova Aliança, como se o anúncio de eventos muito distantes de seus próprios dias fosse a única preocupação dos profetas. Esse é um grande engano, pois desvalorizamos as pessoas e as épocas de atuação dos profetas. Além disso, menos de 2% da profecia do Antigo Testamento é messiânica, menos de 5% descreve especificamente a Nova Aliança e menos de 1% diz respeito a eventos futuros.

            Os profetas do Antigo Testamento realmente anunciaram o futuro, não um futuro distante, mas um futuro imediato de Israel, Judá e de outras nações que existiam ao redor e não o nosso futuro. Desta forma, uma das chaves para a interpretação dos profetas é olharmos para trás, observando os tempos que para eles ainda eram futuro, mas para nós são passado.     

 

            Os Profetas como Porta-Vozes

            A tarefa primária dos profetas era falar da parte de Deus aos seus contemporâneos. E isso é exatamente o que causa muitas dificuldades na leitura e interpretação: a natureza falada das profecias.

            Israel teve centenas de profetas, mas apenas dezesseis[3] foram escolhidos para falarem da parte de Deus e terem seus anúncios colecionados e registrados. Com certeza isso se deve ao fato de que suas profecias se cumpriram (cf. Dt 18.21-22). Alguns profetas têm suas histórias relatadas em narrativas do Antigo Testamento, tais como Elias e Eliseu (1Rs 17.1 – 2Rs 13.21). No entanto, sabemos mais acerca do que estes fizeram do que disseram. Sabemos mais acerca deles (história) do que da parte deles (mensagem). Nos livros proféticos, no entanto, ouvimos da parte de Deus através dos profetas e bem pouco acerca dos profetas. Essa única diferença esclarece a maior parte dos problemas que as pessoas têm em entender o sentido dos livros proféticos do Antigo Testamento.

            Outro motivo que dificulta a leitura e o entendimento das profecias é o fato desses livros serem coletâneas de oráculos falados, frequentemente sem indícios de início e fim e sem informações quanto ao seu contexto histórico. Além disso, a maioria dos oráculos têm forma poética.

A FUNÇÃO DA PROFECIA

            Para entendermos melhor o que Deus deseja dizer-nos através destes livros proféticos, devemos ter uma compreensão clara do papel e da função do profeta em Israel. Três pontos são importantes:

 

  1. 1.Os profetas eram mediadores para fazer cumprir a Aliança

Moisés foi o mediador da Antiga Aliança através da Lei (Êx 20.18-21) e por isso é um paradigma para os profetas que são os mediadores para o cumprimento da Aliança. Como vimos na aula anterior, a Lei constituía uma Aliança entre Deus e Israel. Esta Aliança não contém apenas regras a serem obedecidas, mas também os castigos (maldições) que Deus necessariamente aplicaria ao seu povo se este não guardasse a Lei, bem como os benefícios (bênçãos) da obediência. Deus não somente concede sua Lei (Moisés), mas também a faz cumprir (profetas). O cumprimento resultaria em benção, já a desobediência resultaria em maldição. Aqui entram os profetas. Eles são mediadores, isto é, porta-vozes de Deus no tocante a Aliança. Através deles Deus lembra às pessoas nas gerações posteriores a Moisés que, se obedecessem a Lei seriam abençoados, mas de desobedecessem a Lei, seriam castigadas.

As bênçãos anunciadas a Israel estão especialmente em Levítico 26.1-13, Deuteronômio 4.32-40 e 28.1-14. Porém, há a advertência: Entretanto, se vocês não obedecerem ao SENHOR, o seu Deus, e não seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos e decretos que hoje lhes dou, todas estas maldições cairão sobre vocês e os atingirão [...]” (Dt 28.15). As maldições estão especialmente em Levítico 26.14-39 e Deuteronômio 4.15-28 e 28.15-68. Importante destacar que os textos que anunciam as bênçãos da obediência e os que anunciam as maldições da desobediência estão sempre próximos. Dessa forma, fica claro que os profetas não trazem palavras novas, mas simplesmente aplicam a Lei (benção ou maldição), conforme a Aliança (e.g. Dt 30.15-20). Isso fica claro no exemplo comparativo abaixo:

Deuteronômio (anúncio)

Lamentações (cumprimento)

28.63

1.3a

28.44

1.5a

28.41

1.5c, 18

28.30-31

1.10a

28.25

2.16

28.53-57

2.20; 4.10

28.50

2.21; 5.12b

28.47-50

5.12-14

 

As bênçãos resumem-se em seis itens: vida, saúde, prosperidade, abundância agrícola, respeito e segurança. Já as maldições resumem-se em castigos corporais que podemos separar em dez itens: morte, doença, seca, carestia, perigo, destruição, derrota, deportação, destituição e vergonha. É interessante notar que as bênçãos e as maldições são comunitárias. Ler e estudar esses capítulos resultará em melhor compreensão dos profetas.             

Um fato interessante é que estatisticamente, a maioria das profecias anunciadas nos séculos VIII, VII e VI a.C. dizem respeito a maldição. Isso porque a derrota e o cativeiro do reino do norte (Israel) aconteceu em 722 a.C. e do reino do sul (Judá) em 587 a.C. Nesse período o povo de Israel e Judá não obedeciam a Lei e por isso o castigo é anunciado, objetivando o arrependimento. Após a destruição e o cativeiro dos reinos do norte e do sul, as profecias ganham outra perspectiva: as bênçãos. Isso porque o castigo foi cumprido e Deus volta ao seu plano de Graça e misericórdia (cf. Dt 4.25-31). Por isso, ao ler os profetas, procure o seguinte padrão simples:

  1. i.Uma identidade do pecado de Israel ou do amor de Deus por Israel;
  2. ii.Um anúncio de maldição ou de benção, conforme as circunstâncias.

 

  1. 2.A mensagem dos profetas é mensagem de

A palavra profeta no Antigo Testamento é nabiy (aybin") e provém do verbo semítico chamar (nabu). Por isso podemos afirmar que os profetas verdadeiros respondiam a um chamado divino. Assim, é Deus quem chama os profetas (cf. ÊX 3.1-2; Is 6; Jr 1; Ez 1 – 3). Por isso, aqueles que se auto-declaravam profetas eram tidos como falsos profetas (cf. Jr 14.14 e 23.21). O verdadeiro profeta sempre coloca como prefácio, conclusão ou pontuação regular de “seus” anúncios as expressões: “Assim diz o SENHOR” ou “diz o SENHOR”. Desse modo, em grande parte dos textos, a mensagem profética é retransmitida diretamente conforme recebida do SENHOR, na primeira pessoa, de modo que Deus fala de si mesmo (e.g. Jr 27 – 28).

Pela sua atuação, os profetas tinham um tipo de cargo social. Eram “embaixadores dos céus” e transmitiam ao povo a vontade soberana de Deus. Eles não eram reformadores sociais, nem pensadores religiosos, como defendem algumas linhas de interpretação, mas apenas aplicavam a Lei já revelada. Eles falavam com todos os grupos sociais: reis (e.g. 2Sm 12.1-14), sacerdotes (e.g. Os 4.4-11) e à nação toda. Eles tinham o poder de instalar ou depor reis (cf. 1Rs 19.16), se declaravam favoráveis a guerra ( 2Rs 3.18-19) ou contrários a ela (cf. Jr 27.8-22). Todos os anúncios não tinham a perspectiva dos profetas, mas de Deus, pois os profetas não falavam independentemente, mas de acordo com a “Palavra do SENHOR”.    

 

  1. 3.A mensagem do profeta não é original

Os profetas do Antigo Testamento não foram inspirados a anunciar novas mensagens, mas essencialmente a Lei entregue através de Moisés. A forma de transmissão pode mudar, mas a mensagem está sempre baseada no Pentateuco. Como exemplo, citamos Oséias 4.2a: “Só se vêem maldição, mentira e assassinatos, roubo e mais roubo, adultério e mais adultério [...]”. Oséias profetizou entre 750 a 722 a.C., no Reino do Norte e neste trecho descreve os pecados de Israel. Nesta lista, cinco dos dez mandamentos do Decálogo são citados:

  • maldição” – terceiro mandamento (Êx 20.7): “Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, pois o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.
  • mentira” – nono mandamento (Êx 20.16): “Não darás falso testemunho contra o teu próximo.
  • assassinato” – sexto mandamento (Êx 20.13): “Não matarás.
  • furtar” – oitavo mandamento (Êx 20.15): “Não furtarás.
  • adulterar” – sétimo mandamento (Êx 20.14): “Não adulterarás.

 

É interessante notar que o profeta Oséias não cita literalmente os Dez Mandamentos, mas cita cinco desses mandamentos usando uma só palavra para cada um deles. É o profeta aplicando a Lei.

A Lei também é a fonte da profecia messiânica: “As nações que vocês vão expulsar dão ouvidos aos que praticam magia e adivinhação. Mas, a vocês, o SENHOR, o seu Deus, não permitiu tais práticas. O SENHOR, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no” (Dt 18.14-15). O que os profetas fazem é aplicar essa parte da Lei também. Por isso Jesus pode dizer que a seu respeito está escrito “na Lei, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44), pois Ele é aquele de quem falara Moisés (cf. Jo 1.45).

 

A TAREFA EXEGÉTICA NOS LIVROS PROFÉTICOS

Como vimos na primeira aula, a Bíblia nem sempre é facilmente lida e, principalmente, interpretada. Isso porque a Escritura Sagrada é Palavra de Deus e “palavra de homens”, isto é, Deus usou pessoas em seus respectivos contextos históricas, sociais e culturais para a redação do texto sagrado. Dentro de todos os textos sagrados os Profetas são os mais difíceis de serem lidos e interpretados, exatamente porque seus contextos (históricos, sociais e culturais) não são claros. Na tarefa da exegese vamos buscar o significado dos textos proféticos para Israel.   

Na leitura e interpretação dos livros proféticos temos mais necessidades de consultarmos fontes externas ao texto bíblico. A primeira fonte que necessitamos são os Dicionários Bíblicos, pois auxiliarão com o pano de fundo histórico de cada livro, seu esboço básico, destaques especiais e questões de interpretação que o leitor deve tomar consciência. Isso é importante porque a Palavra de Deus foi revelada a pessoas em situações específicas. Uma segunda fonte são os Comentários. Estes trazem introduções mais detalhadas e completas comprados aos dicionários. Além disso, fornecem informações sobre cada versículo do texto bíblico, bem como apresenta a estrutura do livro todo com detalhes. A terceira fonte são os Manuais Bíblicos. Estes não são tão detalhistas como os comentários, mas auxiliam no pano de fundo e esboço dos livros.

 

Contexto Histórico

Nos livros proféticos há dois contextos históricos que devem ser levados em consideração: o contexto maior, que é a época em que o profeta vive; e o contexto específico, que é o contexto de cada oráculo.

O contexto maior está entre os anos de 760 a.C. e 460 a.C. Todos os livros dos profetas do Antigo Testamento estão entre esses anos, entre o profeta Amós (o primeiro) e Malaquias (o último). Isso não quer dizer que Deus não tenha se revelado antes. Outros trechos da Escritura atestam tal revelação em tempos mais antigos, tais como no tempo de Abraão (cerca de 1800 a.C.), de Josué (cerca de 1400 a.C.) e Davi (cerca de 1000 a.C.). Até através de profetas como Elias e Eliseu Deus se revelou a Israel (1Rs 17.1 – 2Rs 13). Porém, o período dos profetas (760 a.C. a 460 a.C.) exige especial mediação da execução da Aliança (i.e. Lei), tarefa dos profetas. Outro motivo especial foi o interesse de Deus em registrar para toda a História as advertências e as bênçãos anunciadas pelos profetas. Esses anos foram caracterizados por três situações específicas:

  1. i.Transtornos políticos, militares, econômicos e sociais sem precedentes;
  2. ii.Enorme infidelidade e desrespeito à Aliança mosaica;
  3. iii.Mudanças das populações e das fronteiras.

 

Nesses contextos havia a necessidade de uma revelação especial da Palavra de Deus. Essa revelação especial aconteceu em três oportunidades: na época de Moisés, na época dos profetas e no tempo do Senhor Jesus e de seus apóstolos.[4]         

Ao conhecermos os contextos dos profetas, vamos notar que já em 760 a.C. a nação estava dividida entre Reino do Norte (Israel) e Reino do Sul (Judá). Israel, ou Efraim algumas vezes, desobedeceu a Aliança. Começando por Amós (760 a.C.) e logo em seguida Oséias (755 a.C.), Deus falou com o povo, mas como este não se arrependeu, foi condenado e destruído em 722 a.C. pelo maior império da época: a Assíria. Judá continuou e aprofundou sua desobediência à Lei. Profetas como Isaías, Jeremias, Joel, Naum, Habacuque e Sofonias foram levantados e falaram da parte do Senhor ao povo, mas como este também não se arrependeu, foi condenado e destruído em 587 a.C. pelo maior império da época: a Babilônia.  Então, os profetas Ezequiel e Daniel foram levantados e revelaram a Palavra de Deus no exílio. O fim do exílio do Reino do Sul (Judá) começou em 538 a.C. e os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias foram levantados e anunciaram a restauração completa (física e espiritual) da nação (cf. Dt 4.25-31).

Os profetas se dirigem em grande parte a esses eventos, por isso a necessidade de conhecimento desse período da história de Israel para a correta leitura e interpretação dos livros proféticos.      

O contexto específico diz respeito aos oráculos proféticos. Cada oráculo profético foi revelado num contexto histórico específico, isto é, num determinado tempo, lugar e circunstâncias. Assim, o conhecimento do auditório, data e da situação ajudará a leitura e a interpretação. Como exemplo, usaremos o texto de Oséias 5.8-10:

Chamada ao alarme

8 Toquem a trombeta em Gibeá,

e a corneta em Ramá.

Dêem o grito de guerra em Bete-Áven;

esteja na vanguarda, ó Benjamim.

 

Descrição do ataque

9 Efraim será arrasado no dia do castigo.

Entre as tribos de Israel eu proclamo o que acontecerá.

Predição da

derrota

 


10 Os líderes de Judá são como os que mudam os marcos dos limites.

Derramarei sobre eles a minha ira como uma inundação.

 

            Saber que se trata de um oráculo de guerra, de um tipo que proclama o julgamento divino levado a efeito através da batalha ajudará na interpretação. Esse oráculo é anunciado em 734 a.C. O auditório consiste em israelitas do norte, chamados de “Efraim” no oráculo, a quem Oséias dirige sua pregação. A mensagem era especificadamente dirigida às cidades que ficavam no caminho entre Jerusalém e Betel. Esta era o centro do falso culto. A situação é a guerra, pois Judá contra-ataca Israel, após este, juntamente com a Síria terem invadido seu território (cf. 2Rs 16.5). Judá recebeu a ajuda da superpotência da época, a Assíria (cf. 2Rs 16.7-9). Através de Oséias, Deus anuncia o castigo às cidades localizadas no território de Benjamim, pertencentes ao Reino do Norte. A destruição e certa (v. 9) e Judá tomará o território que invadir (cf. v. 10), mas receberá castigo também, pois a ira de Deus cairá sobre os dois reinos, por causa dessa guerra e da idolatria (cf. 2Rs 16.2-4). Judá e Israel deveriam obedecer a Aliança e essa Aliança proibia tal guerra. Conhecer esses fatos faz grande diferença na leitura e interpretação do texto.      

            O isolamento de oráculos individuais

            Para correta leitura e interpretação dos livros proféticos, é necessário pensarmos em oráculos. Esta não é uma tarefa fácil, pois aquilo que os profetas disseram está apresentado em seus livros de maneira ininterrupta, isto é, as palavras que falaram em vários tempos e lugares no decurso dos anos de seus ministérios foram colecionadas e registradas sem qualquer divisão para indicar onde um oráculo termina e começa outro. Alguns livros como Jeremias, Ezequiel, Ageu e Zacarias facilitam a leitura, pois datam as profecias (e.g. Ez 8.1; Ag 2.1 e Zc 7.1), mas na maior parte dos livros proféticos isso não ocorre. Um exemplo dessa situação é Amós 5.1-27. A ARA divide em 5.1-20 e 5.21-27. Já a NVI divide em 5.1-17 e 5.28-27. A pergunta que devemos fazer é: Quantos oráculos há nesse texto?

            São três oráculos em Amós 5.1-27:

  1. i.5.1-3: Lamentação curta, proclamando o castigo;
  2. ii.5.4-17: (Complexo) Convite à bênção e advertência contra castigo;
  3. iii.5.18-27: (Complexo) Advertência sobre castigo vindouro.

As mudanças secundárias de assunto não indicam o começo de um novo oráculo. Por outro lado, as divisões de capítulos também não correspondem a oráculos individuais.  Os oráculos devem ser divididos de acordo com as formas. No caso do texto exposto acima, todos os oráculos foram anunciados próximo do fim do reinado do rei Jeroboão de Israel (793 – 753 a.C.) a um povo cuja relativa prosperidade o levava a considerar impensável que sua nação seria tão devastada ao ponto de cessar de existir dentro de uma só geração. Isso de fato aconteceu em 722 a.C diante da Assíria.  

 

As formas de pronunciamento profético

Reconhecer as formas de pronunciamento é uma das chaves para a delimitação e interpretação dos oráculos. Para anunciar a mensagem de Deus os profetas usaram algumas dessas formas das quais as três mais conhecidas são: processo jurídico, ais, e promessa.

 

O processo jurídico

Nesses oráculos Deus é retratado, de modo imaginativo, como sendo o demandante, o promotor público, o juiz e o oficial de justiça num processo jurídico contra Israel, o réu. A forma completa do processo jurídico contém uma carta rogatória, uma acusação, as evidências e um veredito. Às vezes esses elementos estão subentendidos. Um exemplo dessa forma é Isaías 3.13-26:

  • 3.13-14a: Tribunal convocado e processo instaurado contra Israel;
  • 3.14b-16: Acusação formal é falada;
  • 3.17-26: Israel é claramente culpado e por isso a sentença condenatória é anunciada em juízo.

Israel “quebrou” a Aliança e seus homens e mulheres serão castigados com doença, destruição, privação e morte. Com essa forma dramática e eficaz Israel é comunicado que será castigado porque desobedeceu a Lei.

 

 

 

O ai

A expressão “ai” é outra forma literária de oráculo, conhecido como “oráculo do ai”. “Ai” era a palavra usada pelos israelitas quando enfrentavam a desgraça a morte ou lamentavam num enterro. Através dos profetas Deus usou esses oráculos para anunciar a condenação. Desse modo, nenhum israelita deixaria de perceber a relevância do anuncio.

Os “oráculos do ai” contêm, implícita ou explicitamente, três elementos que o caracterizam de modo sem igual: um anúncio da aflição (a palavra “ai”, por exemplo), a razão da aflição e a predição da condenação. Isaías 5.8-24 é um exemplo de oráculo de ai:

  • 8-10: contra os que se apossam de casas e terrenos;
  • 11-17: contra a vida corrupta dos poderosos;
  • 18-19: contra aqueles que zombam de Deus;
  • 20: contra aqueles que pervertem os preceitos morais;
  • 21: contra os que se julgam sábios;
  • 22-24: contra os juízes corruptos;

 

Jesus, no Novo Testamento, usou a expressão “ai” contra os religiosos de seu tempo: Mt 23.13-36. Isaías, após anunciar “oráculos de ai” para alguns grupos, quando se vê diante do Senhor reconhece sua situação:

Então gritei: Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos exércitos” (Is 6.5).

 

A Promessa

A terceira forma literária apresentada é o oráculo de promessa ou oráculo de salvação. Os elementos característicos dessa forma são: a referência ao futuro, o anúncio de mudanças radicais e o anúncio de bênção. O texto de Amós 9.13-15 é um exemplo:

  1. Referência ao futuro (v. 13a):

Dias virão, declara o Senhor

  1. Anúncio de mudanças radicais (vv. 13b-15):

[...] em que a ceifa continuará até o tempo de arar, e o pisar das uvas até o tempo de semear. Vinho novo gotejará dos montes e fluirá de todas as colinas. Trarei de volta Israel, o meu povo exilado, eles reconstruirão as cidades em ruínas e nelas viverão. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho; cultivarão pomares e comerão do seu fruto. Plantarei Israel em sua própria terra, para nunca mais ser desarraigado da terra que lhe dei”, diz o SENHOR, o seu Deus”.

  1. Anúncio da bênção:

A bênção vem através das categorias da Aliança e neste texto a ênfase recai sobre a abundância agrícola.  

 

Os profetas como poetas

A poesia não é muito comum em nossa sociedade e por isso pensamos ser menos inteligível comprada à prosa. Porém, muitas civilizações antigas usaram a poesia para preservar seus textos. Isso porque, mais do que a prosa, a poesia é mais facilmente memorizável, pois tem certo ritmo, certos equilíbrios e certa estrutura. Uma vez bem aprendido, dificilmente alguém esquecerá um poema.

Israel usou largamente a forma poética como meio de aprendizado. Numa época em que ler e escrever eram habilidades raras e que a posse de livros era algo estranho, Deus falou através de seus profetas por meio de poemas. As pessoas estavam acostumadas à poesia e conseguiam se lembrar das profecias anunciadas.  

Quase todos os livros proféticos contêm grandes partes em forma poética. Por isso será muito útil você ler alguma introdução a poesia hebraica que pode ser encontrado em qualquer dicionário bíblico ou comentário que trate do assunto. Para um exercício, vejamos três aspectos do estilo da poesia hebraica:

  1. i.Paralelismo sinônimo: A segunda linha, ou a linha subseqüente repete ou reforça o sentido da primeira linha, como em Isaías 44.22:

 

Desfaço as tuas transgressões como a névoa,

e os teus pecados como a nuvem”.

 

  1. ii.Paralelismo antitético: A segunda linha ou a linha subseqüente contrasta o pensamento da primeira linha, como acontece em Os 7.14:

 

Não clamam a mi de coração,

mas dão uivos nas suas camas”.

 

  1. iii.Paralelismo sintético: A segunda linha ou a linha subseqüente acrescenta à primeira linha algo que forneça mais informações, como acontece em Obadias 21:

Salvadores hão de subir ao Monte Sião,

para julgarem o monte de Esaú:

e o reino será do Senhor”.

 

Entender algumas regras e características da poesia hebraica ajudará muito na leitura e interpretação.

 

ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS

Com a exegese buscamos entender a mensagem de Deus a Israel, mas como ler e interpretar os Profetas como Palavra de Deus para nós hoje? A hermenêutica nos auxiliará nesse desafio. Para isso, há três questões que podem nos auxiliar: uma precaução, uma preocupação e um benefício.

 

Uma precaução: O profeta como prenunciador do futuro

Como já afirmamos, os profetas em Israel anunciavam o futuro, mas não o nosso futuro. O futuro anunciado era o futuro deles, também chamado de futuro próximo. Por isso, devemos olhar para trás a fim de enxergarmos o cumprimento desses anúncios. O desejo de encontrar nos profetas anúncios a respeito da Nova Aliança pode gerar sérios problemas de interpretação. Um exemplo é Isaías 49.23:

 

Reis serão os seus padrastos,

e suas rainhas serão as suas amas de leite.

Eles se inclinarão diante de você, com o rosto em terra;

lamberão o pó dos seus pés.

Então você saberá que eu sou o SENHOR;

aqueles que esperam em mim não ficarão decepcionados”.

 

Muitas pessoas afirmam que tal profecia é messiânica e se cumpriu na visita dos magos ao Menino Jesus (cf. Mt 2.1-11). Porém, tal interpretação desconsidera o contexto, pois reis e rainhas são mencionados e o tema é a restauração de Judá após o exílio na Babilônia. Desconsideram a intenção, que é mostrar o grande respeito que Judá receberá daqueles que antes o subjugava quando Deus lhe restaurar. Desconsideram o estilo poético que simboliza o respeito das outras nações, pois os soberanos serão como pais adotivos de Judá e essas nações lamberão os pés de Judá. Também desconsideram a redação que deixa claro que o texto de Isaías fala acerca de reis e rainhas, enquanto o texto de Mateus fala sobre magos. Com esse exemplo fica claro que não devemos forçar o texto a significar aquilo que queremos, mas devemos “ouvir” o que Deus teve a intenção de falar.

Porém, algumas profecias se encaixam no pano de fundo escatológico, isto é, no plano eterno de Deus para a redenção do mundo que alcançará seu fim. Isso deve nos ensinar a ver os atos de Deus na história temporal à luz de seu plano global para toda a Criação. Desta forma, o temporal deve ser visto à luz do eterno. É como olhar dois discos, com o menor na frente do maior, diretamente de frente (fig. 1); depois, a partir da perspectiva da história subsequente, vê-los na perspectiva lateral (fig. 2), e assim ver quanta distância há entre eles:

A PERSPECTIVA PROFÉTICA DOS EVENTOS CRONOLÓGICOS

Visão Lateral

Visão Frontal

  

Fig. 1

           

Fig. 2

 

 

 

 

 

 

 

Esse esquema nos mostra que há anúncios proféticos que pertencem aos eventos finais de nossa Era (e.g. Jl 3.1-3; Sf 3.8-9; Zc 14.9), porém, os julgamentos temporais não devem ser “colocados” nesse mesmo lugar.

Outro cuidado que devemos tomar é quanto a linguagem escatológica que frequentemente é metafórica. Isso quer dizer que as metáforas expressam de modo poético a linguagem dos eventos finais, e não são necessariamente predições literais daqueles eventos. Um exemplo acha-se em Ezequiel 37.1-14. Embora use a linguagem da ressurreição dos mortos, esse texto trata da volta da nação de Judá depois do cativeiro babilônico no século VI a.C. (vv. 12-13). Assim, um evento que para nós é passado (cf. Ed 1 – 2) é predito metaforicamente com linguagem escatológica como se fosse um evento do fim dos tempos.

 

Uma preocupação: a profecia e segundos sentidos

            Algumas passagens do Novo Testamento tratam textos do Antigo Testamento com sentidos diferentes. Textos que são claros no Antigo Testamento recebem novos significados e nova interpretação no Novo Testamento. Exemplo são as duas histórias que contam como Israel recebeu milagrosamente água no deserto: Êx 17.1-7 e Nm 20.1-13. São histórias simples e claras, mas que o apóstolo Paulo em 1Coríntios 10.4 identifica como uma experiência de encontro com Cristo. Ele escreveu: “[...] e beberam da mesma bebida espiritual; pois bebiam da rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo”. Nos textos do Antigo Testamento não há indício algum de que a rocha era Cristo, mas Paulo concede esse significado à rocha. Assim Paulo dá a rocha um segundo sentido, comumente chamado de sensus plenior. Dessa afirmação do apóstolo podemos entender que seu ensino é: Aquela rocha foi para eles como Cristo é para nós: fonte de sustento. Essa é a linguagem usada por Paulo desde o verso 2. Se Paulo não tivesse escrito tal texto, provavelmente nunca faríamos a analogia da nuvem e do mar com o batismo e de Cristo com a rocha. Isso quer dizer que nós, hoje, não temos autoridade para atribuir sensus plenior para algum texto. Paulo, por ser escritor inspirado[5] tinha essa autoridade, nós, como leitores iluminados,[6] não temos. Paulo não precisou seguir as regras de contexto, intenção, estilo e redação, pois foi diretamente guiado pelo Espírito Santo. Paulo fez isso para escrever acerca dos alimentos consagrados aos deuses (1Cor 8 – 11.1).        

            A conclusão é que não podemos atribuir um sensus plenior a textos da Escritura, apenas identificar quando isso acontece. Um segundo exemplo é o texto de Oséias 11.1:

 

Quando Israel era menino, eu o amei,

e do Egito chamei o meu filho.

 

            Em Oséias o contexto é o salvamento de Israel do Egito por meio do Êxodo. A intenção é demonstrar como Deus amava Israel como seu próprio filho. O estilo é o paralelismo poético sinônimo, mediante o qual “meu filho” está ligado a “Israel”. A redação é metafórica, pois “Israel” é identificado como “menino”. Jesus, a segunda pessoa da Trindade não é citada pelo Profeta. Porém, Mateus, escritor inspirado, atribuiu pela direção do Espírito Santo um sentido pleno a esta passagem: “Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu filho’” (Mt 2.14-15). Mateus, através da direção do Espírito, reutilizou as palavras de Oséias para aplicá-las a Jesus Cristo. Isso é possível, pois o mesmo Espírito que inspirou Oséias inspirou Mateus.

 

            Um benefício final: a dupla ênfase sobre a ortodoxia e a ortopraxia

            Ortodoxia é a crença correta e ortopraxia é a prática correta. Os profetas conclamaram o povo de Israel e de Judá à crença correta e a prática correta. Essa também é a exigência do Novo Testamento, conforme afirma Tiago: “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. Mas alguém dirá: ‘Você tem fé; eu tenho obras’. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. (Tg 1.27 e 2.18)

            Aqueles que são alcançados pela Nova Aliança e respondem à Graça de Deus obedecendo aos Mandamentos (amar a Deus e as pessoas) terão bênçãos eternas. Aqueles que não respondem a Graça de Deus desobedecendo aos Mandamentos receberão a maldição eterna.   

 



[1] HARRISON, R. K. Levítico. Introdução e comentário. [Trad. Gordon Chown]. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983, PP. 185-186.

[2] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 153-174.

[3] A diferença do número apresentado acima (17 livros) dá-se por causa de Jeremias que é autor de dois livros, aquele que recebe seu nome e Lamentações.

[4] MACARTHUR, John F. Os Carismáticos. [Trad. Elizabeth Gomes]. São Paulo: Fiel, 1981.

[5] A inspiração é a motivação original para registrar a Escritura.

[6] A iluminação é a introspecção para compreender aquilo que os escritores da Escritura registraram.