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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 9 Lei

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

A(S) LEI(S)[1]

 

Há no Antigo Testamento mais de 600 mandamentos que o povo de Israel deveria guardar como resposta de obediência e lealdade ao Senhor. Todos esses mandamento, ou Leis, estão em apenas quatro livros: Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Embora haja muito material nesses livros que não são mandamentos e Gênesis, que não contém um único mandamento que é considerado parte do sistema jurídico israelita, esses livros são chamados de “Livros da Lei”. Assim são conhecidos no Antigo Testamento (e.g. Sl 1.2: “Ao contrário, sua satisfação está na Lei do Senhor e nessa Lei medita de dia e de noite.”) e no Novo Testamento (e.g. Lc 24.44: “E disse-lhes: ‘Foi isso que lhes falei enquanto ainda estava com vocês: era necessário que se cumprisse tudo o que o meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.”). Por isso, desde já, podemos perceber que não há correspondência entre o que nós chamamos de lei e o que o Antigo Testamento entende por Lei. Literalmente as Leis são apresentadas de Êxodo 20 a Deuteronômio 33. O problema para nós, cristãos, se manifesta nas seguintes perguntas: Essas Leis se aplicam a nós hoje? Se sim, como essas Leis se aplicam a nós?

OS CRISTÃOS E A LEI DO ANTIGO TESTAMENTO

Como cristãos, devemos obedecer a todas as Leis do Antigo Testamento? Em caso afirmativo, como farei isso, se todo o aparato sacrificial que estava no Templo não existe mais? Como oferecerei sacrifícios de animais sem ser condenado por maus tratos?

Caso entendamos que não precisamos cumprir a Lei, como entender a seguinte afirmativa de Jesus: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumpri. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17-18). Quando Jesus fez tal afirmação, fazia referência a menor letra do alfabeto hebraico (hwhy – a primeira letra da direita para a esquerda) e para traços que diferenciam as letras desse alfabeto (b / B - o “pontinho” dentro da letra). Qual deve ser nossa posição diante da Lei? Respondemos tal pergunta com seis diretrizes para a compreensão do relacionamento entre o cristão e a Lei do Antigo Testamento:        

  1. 1.A Lei do Antigo Testamento é uma aliança

No tempo do Antigo Testamento havia um tipo de aliança conhecida como suserania. Essa aliança era generosamente outorgada por um suserano que detinha todo o poder a um vassalo que dependia do suserano e por isso deveria servi-lo. O vassalo era protegido e beneficiado e por sua vez deveria lealdade e obediência ao suserano. O vassalo demonstrava lealdade guardando os mandamentos especificados na aliança. Enquanto o vassalo obedecia aos mandamentos, o suserano sabia que o vassalo era leal. Quando os mandamentos eram quebrados o suserano tinha o dever, segundo a aliança, de empreender ações para o castigo do vassalo.

Essa é a relação de Israel com o Senhor no Antigo Testamento. A Lei do Antigo Testamento deveria ser cumprida por Israel (vassalo) que em troca receberia os benefícios e proteção do Senhor (suserano). Encontramos essa mesma relação entre o Senhor e Davi e também entre Jeoaquim e Nabucodonosor (cf. 2Rs 24.1), por exemplo.   

  1. 2.O Antigo Testamento não é “nosso” Testamento

“Testamento” é outra palavra para aliança. O Antigo Testamento representa uma velha aliança que não somos obrigados a guardar. Nenhum mandamento do Antigo Testamento é obrigatório para nós, a não ser que tenha sido renovado na Nova Aliança. A não ser que uma Lei do Antigo Testamento tenha sido reformulada ou reforçada no Novo Testamento, ela não é obrigatória para a igreja. Isso porque houve mudanças entre a Velha Aliança e a Nova Aliança. Deus continua esperando de seu povo obediência e lealdade, mas em manifestações diferentes daquelas que esperava de Israel no Antigo Testamento. Mudou em como a pessoa demonstra lealdade e obediência.    

  1. 3.Algumas estipulações da Antiga Aliança não foram renovadas na Nova Aliança

Podemos separar as Leis da Antiga Aliança em dois grandes grupos: leis civis e leis ritualísticas, ambas israelitas. Leis civis eram especificas aos cidadãos israelitas e promovia penalidades para os mais diversos crimes. Através dessas Leis uma pessoa poderia ser penalizada, presa e até morta. As Leis ritualísticas constituem um bloco maior único de Leis do Antigo Testamento e estão em todas as partes de Levítico, bem como em muitas partes de Êxodo, Números e Deuteronômio. Essas Leis ditavam e detalhavam a prática da adoração de Israel, desde o formato dos elementos da adoração, as responsabilidades dos sacerdotes, quais animais poderiam ser oferecidos e como deveriam ser oferecidos. O sacrifico (matar, cozinhar e comer) de animais era a parte central da adoração no Antigo Testamento. Isso porque não há perdão sem derramamento de sangue (cf. Hb 9.22). Quando Jesus se entregou ao sacrifício toda a Lei ritualística de Israel tornou-se inválida. É a essa Lei que o apóstolo Paulo se refere quando afirma que não devemos mais obedecer “a Lei” (cf. Romanos e Gl 3.15-29; 4.21-31 e 5.1-12 – referente a circuncisão). Assim, para a igreja, a adoração recebeu nova manifestação.

Quando Jesus afirmou que não veio “abolir”, mas “cumprir” a Lei e os Profetas, que nem a menor letra seria “tirada” e que todos os mandamentos da Lei não deveriam ser “violados”, mas sim “ensinados”, não estava afirmando que continuamos debaixo de toda a Lei do Antigo Testamento, mas que essa Lei não pode ser alterada. Porém, a “Lei e os Profetas” chegaram ao fim quando João Batista começou a pregar a Nova Aliança. Por isso Jesus enfatizou que as pessoas deveriam crer no Evangelho (i.e. Boa Notícia) e “entrar” rapidamente no Reino de Deus (cf. Lc 16.16-17), pois caso contrário seriam obrigadas a cumprir toda a Lei da Antiga Aliança. Jesus não aboliu a Antiga Aliança, mas a cumpriu e a renovou anunciando uma Nova Lei: a Lei do amor. Essa Nova Aliança concede uma justiça que ultrapassa a justiça dos escribas e fariseus (que observam a Antiga Aliança como ninguém).        

  1. 4.Parte da Antiga Aliança é renovada na Nova Aliança

Algumas partes éticas da Lei do Antigo Testamento são reafirmadas no Novo Testamento como sendo aplicáveis aos cristãos. Essas partes derivam sua continuidade pelo fato de servirem como base para apoiar as duas Leis básicas da Nova Aliança (cf. Mt 22.34-40): “Ame o Senhor,o seu Deus, de todo o coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças” (Dt 6.5) e “[...] mas ame cada um ao seu próximo como a si mesmo [...]” (Lv 19.18). Jesus renovou algumas partes da Lei do Antigo Testamento, concedendo-lhes nova aplicabilidade e redefinindo-as (cf. Mt 5.21-48). Assim, podemos afirmar que os aspectos, mais do que as próprias Leis, são renovadas da Antiga Aliança para a Nova Aliança, visto serem somente os aspectos daquelas Leis que se constituem numa obrigação continuada para os cristãos.     

  1. 5.A totalidade da Lei do Antigo Testamento ainda é a Palavra de Deus para nós, ainda que não continue sendo o mandamento de Deus para nós

A Bíblia contém muitos mandamentos que precisamos saber, mas que não se aplicam a nós hoje. As Leis do Antigo Testamento eram para Israel e não para a igreja (cf. acima).

  1. 6.Somente aquilo que é explicitamente renovado da Lei do Antigo Testamento pode ser considerado parte da “Lei de Cristo” no Novo Testamento.

Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a Lei de Cristo” (Gl 6.2). Nesta categoria estão os Dez Mandamentos, pois são citados no Novo Testamento de várias maneiras (cf. Mt 5.21-37), bem como os dois grandes mandamentos em Deuteronômio 6.5 e Levítico 19.18.

 

Como cristãos não podemos de forma alguma afirmar que a Lei do Antigo Testamento não é uma parte valiosa da Escritura, pois ela nos conduziu até Cristo (cf. Gl 3.24) e nos convence de que não podemos alcançar justificação através dela, mas somente através de Jesus Cristo. Assim ela funcionou com Israel no Antigo Testamento. A Lei não salva, mas Deus é que salvou Israel do Egito, conquistou a terra de Canaã e abençoou este povo nesta terra. A Lei simplesmente representava os termos do contrato de lealdade que Israel tinha com o Senhor.      

 

LEIS APODÍTICAS

São mandamentos que começam com “façam” e “não façam”, ou seja, diretos e geralmente aplicáveis, deixando claro aos israelitas o que devem fazer para cumprir sua parte na Aliança. Porém, essas leis não são exaustivas, como podemos observar em Lv 19.9-14:

Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês. Não furtem. Não mintam. Não enganem uns aos outros. Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus. Eu sou o SENHOR. Não oprimam nem roubem o seu próximo. Não retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista. Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o SENHOR.

 

            Observe no texto acima que apenas as lavouras (i.e. trigo, cevada, etc.), espigas e de vinhas são mencionadas especificadamente. Isso quer dizer que o produtor de figos ou azeitonas, ou aqueles que criavam rebanhos não deveriam compartilhar seus produtos com os pobres e com os estrangeiros residentes? Não. A Lei é paradigmática, isto é, estabelece um padrão por um exemplo ao invés de mencionar todas as situações possíveis. Com relação àqueles que sofrem com alguma necessidade especial, a Lei não fala apenas do surdo e do cego, mas inclui em sua aplicação os mudos e os aleijados, por exemplo. O surdo e o cego são exemplos selecionados de todas as pessoas cujas fraquezas físicas exigem que sejam respeitadas ao invés de serem desprezadas. Dessa forma, a Lei do Antigo Testamento está muito mais próxima da nossa Constituição do que dos códigos legais.

            Os fariseus julgavam guardar a Lei ao observar a “letra da Lei” (não amaldiçoar o surdo e cego, não o mudo e aleijado) ao invés de observar o “espírito da Lei” (cf. 2Cor 3.6). Por isso se julgavam cumpridores da Lei.  

            Fazendo uma abordagem hermenêutica preliminar, podemos afirmar que a Lei do Antigo Testamento nos mostra quão impossível é agradarmos a Deus com nossos próprios esforços. Paulo afirmou isso: “Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à Lei, pois é mediante a Lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado” (Rm 3.20). Essa constatação também é aplicada aos leitores e não apenas ao Israel do Antigo Testamento. A leitura das Leis do Antigo Testamento deve gerar em nós humildade por percebermos quão indignos somos diante de Deus e louvor e ação de graças porque Ele nos fez aceitáveis aos seus olhos sem cumprimos humanamente toda a Lei, mas através de Jesus Cristo.

 

LEIS CASUÍSTICAS

            São as Leis “caso-a-caso”, isto é, tratam de assuntos específicos. Observe a Lei abaixo:

 

Se seu compatriota hebreu, homem ou mulher, vender-se a você e servi-lo seis anos, no sétimo ano dê-lhe a liberdade. E, quando o fizer, não o mande embora de mãos vazias. Dê-lhe com generosidade dos animais do seu rebanho e do produto da sua eira e do seu tanque de prensar uvas. Dê-lhe conforme a bênção que o SENHOR, o seu Deus, lhe tem dado. Lembre-se de que você foi escravo no Egito e que o SENHOR, o seu Deus, o redimiu. É por isso que hoje lhe dou essa ordem. Mas se o seu escravo lhe disser que não quer deixá-lo, porque ama você e sua família e não tem falta de nada, então apanhe um furador e fure a orelha dele contra a porta, e ele se tornará seu escravo para o resto da vida. Faça o mesmo com a sua escrava. (Dt 15.12-17)

 

            Aqui há condições. Essa Lei é aplicável a um israelita que tenha escravos ou a um israelita que tenha um escravo, mas este deseja permanecer trabalhando na casa de seu senhor após o período de seis anos. Como não somos israelitas e não temos escravos, essa Lei não se aplica a nós. As Leis Casuísticas constituem uma grande parte dos mais de seiscentos mandamentos encontrados no Antigo Testamento e nenhum delas é explicitamente renovada na Nova Aliança. Isso acontece porque tais Leis se aplicam especificadamente à vida civil, religiosa e ética de Israel no Antigo Testamento.  

            Como cristãos, ao olharmos para a Lei de Dt 15.12-17, podemos entender que a escravidão em Israel estava longe de ser algo brutal e severo, bem diferente da escravidão praticada no Brasil, por exemplo. Além disso, a escravidão tinha limites (seis anos). Outra constatação é a de que Deus ama os escravos, pois seu próprio povo fora escravo no Egito. Também tomamos consciência de que os escravos eram tratados com benignidade pelos senhores, pois recebiam abrigo, alimento e roupas. Por isso, muitos desejam permanecer na casa de seus senhores. Também podemos notar que o senhor não era dono supremo do escravo, mas Deus era Senhor e Dono tanto do homem livre quanto do escravo. Desta forma, mesmo não tendo escravos ou sendo escravos, podemos aprende acerca da justiça e ideais de Deus para Israel, como Deus se relaciona com seu povo e a respeito da redenção, assunto muito tratado no Novo Testamento. Esta Lei, portanto, nos fornece uma parte importante do pano de fundo histórico para o ensino neotestamentário sobre a redenção; um quadro mais claro da escravidão em Israel, que era bem diferente da escravidão que imaginamos e uma perspectiva do amor de Deus. Dessa forma, essa passagem jurídica é Palavra de Deus para nós, embora não seja mandamento.

            Assim, como paradigma, as Leis do Antigo Testamento devem servir para nos instruir na vontade de Deus.

 

A LEI DO ANTIGO TESTAMENTO E OUTROS CÓDIGOS LEGAIS ANTIGOS

            Israel não foi o primeiro nem o único povo a viver de acordo com códigos legais na Antiguidade. Outros povos também observavam Leis. Israel recebeu sua Lei aproximadamente em 1440 a.C., mas outras nações já observavam suas leis antes desse período. Porém, quando comparamos essas leis com as Leis do Antigo Testamento, fica evidente a superioridade da Lei de Israel. Isso não quer dizer que a Lei de Israel representa o mais alto nível ético e moral, pois isso só aconteceria em Jesus no Novo Testamento. Vamos comparar com o famoso Código de Leis de Hamurabi, um rei da Babilônia que promulgou a “lei da terra” em 1726 a.C.:

 

Se um nobre ferir a filha doutro nobre livre, e provocar um aborto da parte dela, deve pagar dez siclos de prata pelo feto dela. Se aquela mulher morrer, devem matar a filha do primeiro. Se, por uma pancada violenta, provocar o aborto da filha de um membro da plebe, deve pagar cinco siclos de prata. Se aquela mulher morrer, deve pagar ½ mina de prata. Se ferir a escrava de um nobre livre e provocar um aborto da parte dela, deve pagar dois siclos de prata. Se aquela escrava morrer, deve pagar 1/3 mina de prata.  

            Há vários pontos que podemos comparar, mas vamos nos ater nas distinções de classes. Note que as leis estipulam apenas multas para quem provocou a morte de uma escrava ou de uma mulher da plebe, ao passo que a penalidade por causa da morte de um membro da nobreza é a morte. Interessante também é que os homens da nobreza eram praticamente imunes ao castigo pessoal, enquanto os danos fossem contra mulheres. Assim, no segundo grupo de leis (Hamurabi, leis 209-214), até mesmo quando um nobre provoca a morte da filha de outro nobre, quem paga pelo dano é a filha do culpado, que é executada.

            Nessa em outras leis da Antiguidade, mulheres e escravos eram tratados como bens materiais. Um dano a um deles era tratado como um dano a animais ou bens. Já o Antigo Testamento proíbe o assassinato sem qualquer distinção social ou se sexo: “Não matarás” (Êx 20.13); “Quem ferir um homem e o matar terá que ser executado” (Êx 21.12). Com relação aos escravos essa mudança também é nítida: “Se quebrar um dente de um escravo ou de uma escrava, terá que libertar o escravo como compensação pelo dente” (Êx 21.27); “Se um escravo refugiar-se entre vocês, não o entreguem nas mãos do seu senhor. Deixem-no viver no meio de vocês pelo tempo que ele desejar e em qualquer cidade que ele escolher. Não o oprimam” (Dt 23.15-16). Em contraste com a lei de Hamurabi que condenava a filha pelo erro do pai, o Antigo Testamento é explícito: “Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado” (Dt 24.16).     

 

A LEI DO ANTIGO TESTAMENTO COMO BENEFÍCIO A ISRAEL

            A Lei não pode justificar e prover a vida eterna, pois não foi projetada para isso. Ninguém pode alcançar a aceitação de Deus e ser salvo pelo cumprimento da Lei, pois não há possibilidade humana de cumprimento total da Lei. Pelo menos uma de suas regras será quebrada e quebrar apenas um mandamento da Lei já faz da pessoa um transgressor de toda a Lei (cf. Tg 2.10). Porém, quando o propósito da Lei era compreendido, esta poderia ser muito benéfica aos israelitas, pois manifestava a Graça e a misericórdia de Deus ao seu povo, como podemos perceber nos exemplos abaixo:

 

As Leis do Alimento

            E o porco, embora tenha casco fendido e dividido em duas unhas, não rumina; considerem-no impuro”. (Lv 11.7)

            A vasta maioria dos alimentos proibidos são aqueles que têm mais probabilidade de transmitir doenças no clima árido do deserto do Sinai e na terra de Canaã, são estultamente antieconômicos para produzir no contexto agrário específico do deserto do Sinai e na terra de Canaã e são alimentos favorecidos para o sacrifício pagão de grupos cujas práticas os israelitas não deveriam imitar. Além disso, hoje pesquisas médicas indicam que alergias aos alimentos variam de acordo com as populações étnicas, as Leis do alimento protegiam os israelitas de certas alergias. É interessante notar que a principal fonte de carne dos israelitas (ovelha) é a menos alérgica de todas as carnes principais, de acordo com especialistas nas alergias em alimentos.

 

Leis acerca do derramamento de sangue

            “Traga o novilho para a frente da Tenda do Encontro. Arão e seus filhos colocarão as mãos sobre a cabeça do novilho, e você o sacrificará na presença do SENHOR, defronte da Tenda do Encontro. Com o dedo, coloque um pouco do sangue do novilho nas pontas do altar e derrame o resto do sangue na base do altar”. (Êx 29.10-12)

            Deus sempre deixou claro que o pecado merece o castigo. Foi revelado através da Lei que quem peca deve morrer. Porém, Deus providenciou um meio para que as pessoas não morressem: a morte, isto é, o sangue de um substituto. Assim, a oferta de animais substituía a morte do pecador. O sistema sacrificial da Lei incorporou este procedimento na vida de Israel. Era parte necessária da sobrevivência do povo, pois “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” (cf. Hb 9.22). O ponto mais importante dessas Leis de derramamento de sangue é o estabelecimento de um precedente para a obra de expiação vicária realizada por Jesus Cristo na cruz. Desse modo, a morte de Cristo fornece o cumprimento definitivo da exigência da Lei e é a base de nossa aceitação por Deus. As Leis do Antigo Testamento servem de fundo histórico vívido daquele grande evento da História.

 

            Proibições Incomuns

Obedeçam às minhas leis. Não cruzem diferentes espécies de animais. Não plantem duas espécies de sementes na sua lavoura. Não usem roupas feitas com dois tipos de tecido”. (Lv 19.19); “Não cozinhem o cabrito no leite da própria mãe”. (Dt 14.21)

O que há de errado nas proibições acima? Por que tais práticas são proibidas? O motivo de tais proibições entre outras visavam impedir a participação de israelitas nas práticas pagãos de culto dos cananitas. Estes acreditavam que na “magia simpática”, que é a ideia de que ações simbólicas influenciam os deuses e a natureza. Por isso, pensavam que cozinhar o cabrito no leite da própria mãe garantiria magicamente a fertilidade do rebanho. Do mesmo modo, ao misturar raças de animais, de sementes ou tecidos nas roupas, “acasalaria” de forma mágica e gerariam abundância na colheita. Assim, essas Leis impediam que Israel se desviasse à idolatria e mantivesse sua fé no Senhor.   

 

As Leis que outorgam bênçãos àqueles que as guardam

Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em sua própria cidade, para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o SENHOR, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos”. (Dt 14.28-29)

Todas as Leis de Israel tinham por objetivo abençoar se obedecidas, mas algumas tratam recompensas específicas. A Lei do dízimo do terceiro ano, segundo o texto acima, coloca a benção como predicado da obediência. Se o povo não cuidasse dos necessitados em seu meio, Deus não prosperaria a nação. Essa Lei é para a manutenção da ordem social dentro de Israel.

 

DIRETRIZES HEUMENÊUTICAS

Para a leitura correta das Leis do Antigo Testamento, segue breve lista de princípios:  

  1. 1.A Lei do Antigo Testamento é Palavra de Deus inspirada para os cristãos; porém não é mandamento direto de Deus a você;
  2. 2.A Lei do Antigo Testamento é a base da Antiga Aliança e, portanto, da história de Israel; porém não é obrigatória para os cristãos, a não ser onde for especificadamente renovada no Novo Testamento;
  3. 3.Valorize a justiça, o amor e os altos padrões de Deus revelados na Lei do Antigo Testamento; porém não se esqueça da misericórdia e da graça de Deus;
  4. 4.A Lei do Antigo Testamento não é completa; porém é paradigmática e por isso fornece exemplos para todos os comportamentos que se espera daqueles que fazem parte do povo de Deus;
  5. 5.A Lei do Antigo Testamento nem sempre é citada pelos profetas ou no Novo Testamento; porém a essência da Lei (os Dez Mandamentos e as duas leis principais) é repetida pelos profetas e renovada no Novo Testamento;
  6. 6.A Lei do Antigo Testamento é uma dádiva generosa a Israel, trazendo muitas bênçãos quando obedecida; porém não é um agrupamento de regulamentos arbitrários e irritantes que limitam a liberdade das pessoas;
  7. 7.A Lei do Antigo Testamento se assemelha ao Tratado de Suserania.       

 

EXERCÍCIO: Analise a Lei abaixo e responda:

  1. Por que não é mandamento para você?
  2. Como interpretá-lo como Palavra de Deus?

 

Respeite cada um de vocês a sua mãe e o seu pai, e guarde os meus sábados. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês” (Lv 19.3) e “Não cortem o cabelo dos lados da cabeça, nem aparem as pontas da barba” (Lv 19.28).

 



[1] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 137-152.