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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 8 Narrativas do Antigo Testamento

 

EXEGESE – GÊNERO LITERÁRIO

NARRATIVAS DO ANTIGO TESTAMENTO[1]

 

            Na Revista Ultimato de setembro-outubro de 2011,[2] na seção “O LEITOR PERGUNTA”, o pastor Ed René Kivitz recebeu a seguinte pergunta enviada por um leitor: “Pastor, meu nome é Leonel e gostaria de saber se estou errado em interpretar passagens como Salmos 1.3 e Isaías 55.8-9, e testemunhos bíblicos como os de José no Egito e Jó, que teve tudo em dobro, como promessas de prosperidade para a minha vida. Os pastores estão errados em pregar esse tipo de promessas em suas igrejas?”. O que você acha? Devemos ou não interpretar esses textos como promessas para nossas vidas? Para responder a essa pergunta vamos aprender a interpretar os gêneros literários usados na Escritura. Comecemos com as narrativas do Antigo Testamento.

Gêneros literários são os estilos de escrita usados na Bíblia. Nas próximas aulas estudaremos os gêneros literários usados na Escritura Sagrada com o objetivo de uma melhor compreensão e interpretação do texto bíblico.      

A narrativa é o tipo de literatura mais usada na Bíblia. Aproximadamente 40% de todo o Antigo Testamento é narrativo. Somado ao fato de que o Antigo Testamento compõe ¾ de toda a Bíblia, a narrativa torna-se a literatura mais comum na Escritura. Os seguintes livros no Antigo Testamento são compostos em grande medida ou inteiramente de narrativas: Gênesis, Josué, Juízes, Rute, 1 e 2Samuel, 1 e 2Crônicas, Esdras, Neemias, Daniel, Jonas e Ageu. Além disso, Êxodo, Números, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Jó contêm grandes partes narrativas. No Novo Testamento a maior parte dos Evangelhos e quase a totalidade de Atos também são narrativas.

            Narrativas são histórias, mas para evitar qualquer comparação ou semelhança com histórias humanas, os estudiosos usam a palavra “narrativa” para se referir a História de Deus, que é totalmente verídica, crucialmente importante e frequentemente complexa. É maior e mais gloriosa do que qualquer história ou epopéia humana.      

O Espírito Santo foi sábio ao inspirar tão grande parte da Bíblia em forma narrativa, pois essa literatura serve bem ao propósito da revelação de Deus. Isso porque as pessoas gostam naturalmente de narrativas, isto, de histórias. O propósito da narrativa bíblica é mostrar Deus agindo em sua Criação e entre seu povo. Estas narrativas o glorificam e nos ajudam a entendê-lo, assim como a amá-lo e servi-lo e nos apresenta a História da Salvação.[3]  

            Toda narrativa tem um narrador (quem conta a história), personagens (aqueles que interagem na história), cenários (locais onde a história acontece), tempo (ambientação da história) e enredo (como a história é contada e seus conflitos). As narrativas do Antigo Testamento têm enredo especial, global e um elenco de personagens especiais, dos quais o mais especial e o principal é Deus (Pai/Jesus/Espírito Santo).

 

TRÊS NÍVEIS DE NARRATIVAS

            Para entendermos melhor as narrativas do Antigo Testamento, devemos entender os três níveis da narrativa: o nível superior, que é o plano universal de Deus, elaborado através da sua Criação. Aspectos-chave nesse nível são: a Criação inicial, a Queda da humanidade, o poder e a universalidade do pecado, a necessidade da redenção, a encarnação e sacrifício de Cristo. O segundo nível é o intermediário e no Antigo Testamento centraliza-se em Israel. Os aspectos-chave são o chamado de Abraão, os patriarcas, a escravidão e a libertação do Egito, a conquista da Terra de Canaã, os frequentes pecados de Israel, a paciência de Deus (profetas), os cativeiros de Israel e Judá e a restauração do exílio. O nível inferior é o terceiro nível e aqui se acham todas as centenas de narrativas individuais que perfazem os dois outros níveis. Alguns exemplos são: a narrativa de José (Gn 39 – 50), a narrativa de Gideão quando este duvidou de Deus e o testou (Jz 6.36-40) e a narrativa do adultério de Davi e Bate-Seba (2Sm 11.1-5).

            É muito importante compreender que cada narrativa individual do Antigo Testamento (nível inferior) é parte da narrativa maior da história de Israel no mundo (nível intermediário), que por sua vez faz parte da narrativa superior da Criação e redenção de Deus. A situação é conforme a ilustração abaixo:

 

 

 

 

NARRATIVA SUPERIOR

CRIAÇÃO     QUEDA         PECADO      REDENÇÃO            ENCARNAÇÃO   SACRIFÍCIO

NARRATIVA INTERMEDIÁRIA

ABRAÃO       EGITO            CANAà                    CATIVEIRO              RESTAURAÇÃO

 

 

 

NARRATIVA INFERIOR

 

 

 

           

Esdras/Neemias/Ageu

2Reis/Ester/Daniel

Josué

Moisés

José

 

 

 

 

 

 

 


            A narrativa superior vai além do Antigo Testamento através do Novo Testamento. É necessário valorizar toda narrativa individual (inferior) dentro dos outros dois níveis. Às vezes uma narrativa é composta de um grupo de narrativas mais curtas, individuais. Essa narrativa é chamada de narrativa composta, porém também se enquadra dentro do significado dos outros níveis. É nessa perspectiva que Lucas narrou que Jesus, em conversa com os dois discípulos que desciam para Emaús, explicou a Escritura: “E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc 24.27) e afirmou: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito [...]” (Jo 5.39). Ao afirmar isso, Jesus não fez referência a cada narrativa do Antigo Testamento, mas falava do nível superior da narrativa do Antigo Testamento, em que sua expiação é o ato central e seu domínio sobre toda a Criação é o clímax. Assim Ele ensinou que a Escritura em sua inteireza testifica e focaliza Sua pessoa e obra. É necessário o entendimento de que narrativas individuais, que podem ser compostas, fazem parte de uma narrativa principal (intermediária) que está dentro da narrativa superior. Para melhor entendermos, vamos estudar a narrativa de José que compreende o bloco de Gênesis 37 – 50.

            Ao lermos esse bloco fica evidente que José é o principal personagem humano da narrativa. José é altivo e crítico (Gn 37) como resultado do favorecimento de Jacó, seu pai (Gn 37.3). Sua insistência em contar seus sonhos arrogantes e de superioridade aos seus irmãos não ajuda em nada em sua situação familiar (Gn 37.10-11). Por causa disso os irmãos de José o vendem como escravo e enganam Jacó, levando-o a pensar que José estava morto. Ao chegar ao Egito, José é vendido como escravo a Potifar e logo passa a administrar a casa de Potifar com sucesso (Gn 39). Por que José alcança sucesso na administração da casa de Potifar? Por causa de suas habilidades administrativas inatas? Não! Gn 39.1-6a nos revela o motivo:

José havia sido levado para o Egito, onde o egípcio Potifar, oficial do faraó e capitão da guarda, comprou-o dos ismaelitas que o tinham levado para lá. O SENHOR estava com José, de modo que este prosperou e passou a morar na casa do seu senhor egípcio. Quando este percebeu que o SENHOR estava com ele e que o fazia prosperar em tudo o que realizava, agradou-se de José e tornou-o administrador de seus bens. Potifar deixou a seu cuidado a sua casa e lhe confiou tudo o que possuía. Desde que o deixou cuidando de sua casa e de todos os seus bens, o SENHOR abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do SENHOR estava sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo. Assim, deixou ele aos cuidados de José tudo o que tinha, e não se preocupava com coisa alguma, exceto com sua própria comida.    

           

O motivo do sucesso administrativo de José é a presença do Senhor. A narrativa continua e José é preso injustamente pelo episódio com a mulher de Potifar (Gn 39.6c-20). Na prisão, José alcançou o posto de prisioneiro-administrador. Por que alcançou tal posto dentro do cárcere? Porque o Senhor continuava com José e lhe era bondoso (Gn 39.20b-23:

José ficou na prisão, mas o SENHOR estava com ele e o tratou com bondade, concedendo-lhe a simpatia do carcereiro. Por isso o carcereiro encarregou José de todos os que estavam na prisão, e ele se tornou responsável por tudo o que lá sucedia. O carcereiro não se preocupava com nada do que estava a cargo de José, porque o SENHOR estava com José e lhe concedia bom êxito em tudo o que realizava.   

 

            O narrador inspirado não deixa dúvidas de quem é o herói da história: Deus. E o tema ou moral da história é a presença de Deus com José em todas as situações. Dessa forma, não devemos encontrar o assunto ou ensino dentro de cada narrativa individual, mas o bloco todo aponta para o ensino correto: Deus está com José e controla a história. Em outras palavras, não devemos procurar alguma característica em José para imitarmos e assim sermos abençoados, pois a narrativa trata de um candidato improvável ao sucesso, mas que pela presença de Deus em sua vida obtém sucesso naquilo que faz. Essa narrativa não contém regras para os negócios ou para a vida em geral, mas fala sobre Deus.

            A narrativa continua com José interpretando os sonhos do padeiro e do copeiro do rei, mas com uma declaração importante de José: “Disse-lhes José: “Não são de Deus as interpretações? Contem-me os sonhos” (Gn 40.8b). É interessante notar que o copeiro se esqueceu de José (Gn 40.23), mas Outra Pessoa não esquece José. Após dois anos, José é tirado da prisão para interpretar os sonhos que Faraó tivera. Diante de Faraó, José afirma por duas vezes: “Isso não depende de mim, mas Deus dará ao faraó uma resposta favorável” (Gn 41.16), “Deus revelou ao faraó o que ele está para fazer” (Gn 41.25b) e “Deus mostrou ao faraó aquilo que ele vai fazer” (Gn 41.28b). Como resposta, Faraó procurava alguém “em quem está o espírito divino” (Gn 41.38) para governar o Egito durante os anos que precederiam os anos de fome e durante os anos de fome também. “Em quem estava o Espírito Divino”?

Disse, pois, o faraó a José: “Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém tão criterioso e sábio como você. Você terá o comando de meu palácio, e todo o meu povo se sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono serei maior que você”. E o faraó prosseguiu: “Entrego a você agora o comando de toda a terra do Egito”. Em seguida o faraó tirou do dedo o seu anel-selo e o colocou no dedo de José. Mandou-o vestir linho fino e colocou uma corrente de ouro em seu pescoço. Também o fez subir em sua segunda carruagem real, e à frente os arautos iam gritando: “Abram caminho!” Assim José foi colocado no comando de toda a terra do Egito. (Gn 41.39-43).    

 

            Quem colocou José como comandante do Egito? José mesmo? Suas habilidades? Sua família? Não! Deus colocou José como comandante do Egito. Na sequência da narrativa, José se revela a seus irmãos e nesse ato reconhece quem está no comando da história e quem conduziu sua vida até então (Gn 45.5-9):

Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês. Já houve dois anos de fome na terra, e nos próximos cinco anos não haverá cultivo nem colheita.  Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida com grande livramento. Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus. Ele me tornou ministro do faraó, e me fez administrador de todo o palácio e governador de todo o Egito. Voltem depressa a meu pai e digam-lhe: Assim diz o seu filho José: Deus me fez senhor de todo o Egito. Vem para cá, não te demores.  

 

            José entendia que Deus dera seus filhos (“Respondeu José a seu pai: “São os filhos que Deus me deu aqui” Gn 48.9a) e encerra o drama familiar ao reconhecer quem era e quem Deus é, assim como perdoar seus irmãos: “José, porém, lhes disse: ‘Não tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus? Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos’” (Gn 50.19-20). No fim da vida, José testemunha sua fé em Deus e a promessa de libertação dos israelitas do Egito (Gn 50.24-25):

Antes de morrer José disse a seus irmãos: “Estou à beira da morte. Mas Deus certamente virá em auxílio de vocês e os tirará desta terra, levando-os para a terra que prometeu com juramento a Abraão, a Isaque e a Jacó”. E José fez que os filhos de Israel lhe prestassem um juramento, dizendo-lhes: “Quando Deus intervier em favor de vocês, levem os meus ossos daqui”.

 

Todo o processo da vida de José foi conduzido por Deus, tanto as situações boas como as ruins. Essa narrativa ganha significado na narrativa intermediária de Israel (preservação no período de fome, escravidão, libertação do Egito e conquista da terra de Canaã), que por sua vez ganha sentido na narrativa superior no plano de redenção de Deus que através desse povo traria o Messias. Dessa maneira a narrativa anuncia a graça e a providência de Deus e nos leva a respeitar e confiar em Seus caminhos e em Sua provisão.

 

PRINCÍPIOS PARA A INTERPRETAÇÃO DE NARRATIVAS

Abaixo dez princípios que devem ajudar a evitar erros óbvios de interpretação de narrativas:

  1. i.Geralmente, uma narrativa do Antigo Testamento não ensina diretamente uma doutrina;
  2. ii.Uma narrativa do Antigo Testamento usualmente ilustra uma doutrina ou doutrinas ensinadas de modo proposicional noutros lugares;
  3. iii.As narrativas registram o que aconteceu – não necessariamente o que deveria ter acontecido ou o que deve acontecer todas as vezes. Nem toda narrativa, portanto, tem uma moral da história identificável e individual;
  4. iv.O que as pessoas fazem nas narrativas não é necessariamente um bom exemplo para nós. Frequentemente é exatamente o contrário;
  5. v.A maior parte dos personagens nas narrativas do Antigo Testamento está longe de ser perfeita, e suas ações também;
  6. vi.Nem sempre somos informados no fim de uma narrativa se aquilo que aconteceu foi bom ou mal. Espera-se de nós que possamos julgar a história com base no que Deus já nos ensinou na Escritura, de modo direto ou categórico;
  7. vii.Todas as narrativas são seletivas e incompletas. Nem sempre todos os pormenores relevantes são dados. O que realmente aparece na narrativa é tudo quanto o autor inspirado considerava importante sabermos;
  8. viii.As narrativas não são escritas para responderem a todas as nossas perguntas teológicas. Têm propósitos limitado, específicos e particulares, e tratam de certas questões, deixando as demais para serem tratadas noutros lugares, doutras maneiras;
  9. ix.As narrativas podem ensinar explicitamente (ao declarar algo de modo claro) ou implicitamente (ao subentender claramente alguma coisa sem declará-la);
  10. x.Em última análise, Deus é o protagonista/herói de todas as

 

 

EXERCÍCIO: Leia e interpreta o livro de Rute como fizemos acima com a narrativa de José.



[1] Aula prepara com material de: FEE, G. D. & STUART, D. Entendes o que lês. Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 63-78.

[2] KIVITZ, Ed René. Cotidiano – o leitor pergunta. Revista Ultimato. Viçosa, MG: Editora Ultimato, setembro-outubro 2001, no 332, Ano XLIV, p. 38.   

[3] História da Salvação (do alemão Heilsgeschichte) surge com Oscar Cullmann, em resposta a “desmitologização” do Novo Testamento de Bultmann. O argumento de Cullmann é que a História bíblica, que é real, é a “arena”, ou o “palco” em que ocorre a salvação. Para mais informações, ver prefácio de Ricardo Q. Gouvêa In: CULLMANN, Oscar. Cristo e o Tempo. Tempo e História no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Custom, 2003.