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04 Renúncia - 1Cor 6.1-11

 INTRODUÇÃO

            Uma vez ouvi um relato de incidente no transito que nunca mais esqueci. Houve uma manobra mais brusca e um carro “fechou” outro carro. Porém, quando o sinal fechou, ambos encostaram lado a lado. O motorista prejudicado baixou o vidro o mais rápido possível, enquanto o infrator olhava assustado e esperando o pior. Ao baixar o vidro, o motorista que sofrera com a manobra brusca sorriu, levantou uma das mãos e disse: “Deus te abençoe!”. O motorista inconseqüente, que já se preparava para responder duramente, não teve reação alguma. A renúncia as vezes é o melhor caminho.

     

 

Renunciar é desistir (da posse ou exercício de um direito); abdicar, resignar.[1] A primeira parte do capítulo seis de 1Coríntios trata desse assunto.

 

DESENVOLVIMENTO

 

Problema

Após escrever acerca da imoralidade e da resposta da comunidade, Paulo volta a tratar sobre problemas de relacionamentos dentro da igreja. Aproveitando o “gancho” do julgamento orientado no capítulo anterior (5), o apóstolo passa a tratar de outro tipo de julgamento, resultado de processos litigiosos entre irmãos da igreja de Corinto.[2] Esses problemas eram gerados por causas judiciais a respeito de bens materiais.[3] Isso gerava o litígio entre as pessoas da igreja e resultava em um sério problema.

Mau testemunho e derrota

Os problemas entre pessoas da igreja são levados às autoridades pagãs. Paulo começa perguntando como alguém aventura-se (tem coragem) de levantar uma questão contra outro irmão (i.e. queixa – NVI) e levá-la aos ímpios e não ao santos. Se os santos não podem julgar os de fora da igreja (cf. 5.12-13), estes também não podem julgar os santos.[4] Em outras palavras, como um cristão pode usar de um tribunal pagão para julgar seu litígio contra outro cristão? Paulo afirma que tal atitude é condenável, pois os santos, isto é, os cristãos, julgarão o mundo. O Senhor Jesus falou acerca disso: “Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.” (Mt 19.28). Por isso Paulo pergunta: “Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância?” (v. 2b). Paulo continua seu argumento e pergunta: “Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos?” (v.3a).[5] Diante de tal situação, o conselho do apóstolo é claro: “Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes” (v. 4). A palavra usada aqui para a expressão “menos importantes” (NVI) ou “que não têm nenhum aceitação da igreja” (ARA) tem a mesma raiz da palavra usada em 1.28 para se referir as “coisas [i.e. pessoas] desprezadas” (evxouqenhme,nouj - exoutheneo), pois Paulo questiona: “Acaso não há entre vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos?” (v. 5b). Essa era uma prática permitida pelos romanos.[6] Os judeus julgavam causas assim dentro de suas comunidades.[7] O mais simples julgando causas dos mais sábios era motivo de vergonha para eles. Porém, os cristãos estavam levando suas causas aos tribunais e consequentemente aos “incrédulos”, isto é, aqueles que não creem e não confiam em Deus. Estes estavam julgando as causas de membros da igreja.[8] Isso é um mau testemunho, pois os discípulos de Jesus são conhecidos pela unidade (cf. Jo 17.22-23: “Deis-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam lavados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.”) e quando há contendas, não há unidade. E quando não há unidade, o “mundo” (kosmo, assim como no texto em questão) não reconhece que Jesus foi enviado pelo Pai. Essa é mais uma prática pagã, comum na cidade de Corinto, introduzida na igreja, pois os gregos sempre gostaram de litígios e julgamentos. Por isso, Paulo, ao escrever essa parte da carta, usa nove vezes a raiz (krith,rion - kriterion) da palavra julgar. No capítulo anterior (5) Paulo orienta o julgamento e a expulsão de um membro da igreja, mas a situação é bem diferente, pois neste capítulo a santificação da igreja está em jogo. Por isso a radicalidade. Agora o julgamento é condenado, pois o motivo são interesses pessoais.[9]   

Infelizmente essa é a realidade de grande parte das igrejas hoje. Problemas internos entre cristãos servem de mau testemunho diante dos não cristãos. Gandhi sempre questionou a vida dos cristãos que contradizia a fé. “Certa vez um missionário encontrou-se com Mahatma Gandhi na Índia, e perguntou: ‘Senhor Gandhi, sempre citas as palavras de Cristo. Por que resisti tão duramente e rejeita tornar-se seu seguidor?’ Ao que respondeu Gandhi: ‘Ó! Eu não rejeito seu Cristo. Eu amo seu Cristo. Apenas creio que muitos de vocês cristãos são bem diferentes do vosso Cristo’.”[10] É por isso que Gandhi disse algumas frases como: “Amo o cristianismo, mas odeio os cristãos, pois não vivem segundo os ensinamentos de Cristo”;[11] “Eu seria cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia.”[12] Nietzsche, outro desiludido com os cristãos disse: “Passarei a acreditar no Redentor quando o cristão parecer um pouco mais redimido”.[13]

Paulo afirma que só o fato de existir “litígios” entre os cristãos de Corinto já é uma “completa derrota” (v. 7), independente do resultado do processo.[14] Diante desse sério problema, o apóstolo faz duas perguntas retóricas: “Por que não preferem sofrer injustiça?” e “Por que não preferem sofrer o prejuízo?”. Ao invés de levar aos tribunais pagãos e de levar a algum irmão da igreja, Paulo dá outra saída: “Por que vocês não perdem? Por que não renunciam seus direitos?”. Esta seria a “completa vitória”. Mas ao contrário, os cristãos de Corinto causavam “injustiça” e “danos” a seus próprios irmãos (v. 8). Tal prática é condenável e digna de correção, pois é contrária ao ensino do Senhor (Mt 5.38-42):

 Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.E se alguém quiser processá-lo[15] e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.

Paulo, então, afirma que os “injustos” não herdarão o Reino de Deus. É uma clara referência aos atos de injustiça praticados por aqueles que levam suas causas contra outros irmãos aos tribunais pagãos, pois é a mesma raiz das palavras usadas nos versos 7 e 8. Junto aos “injustos” (“perversos” na NVI), os “imorais” (po,rnoi - pornoi), os “idólatras” (eivdwlola,trai - eidololatres),[16] os “adúlteros” (moicoi. - moichoi),[17] os “homossexuais passivos” (malakoi. - malakoi),[18] os “homossexuais ativos” (avrsenokoi/tai - arsenokoitai)[19]. Essa primeira parte da lista daqueles que não herdarão o Reino de Deus diz respeito a práticas pecaminosas contra o próprio corpo.[20] A lista continua e traz: “ladrões” (kle,ptai - kleptai),[21]avarentos” (pleone,ktai - pleonektai),[22]alccolátras” (me,qusoi -methusoi), “caluniadores” (loi,doroi- loidoroi) e “trapaceiros” (a[rpagej - arpagez).[23] Esta segunda parte da lista cita práticas pecaminosas contra outras pessoas,[24] ferindo assim o segundo mandamento mais importante (cf. Mc 12.31).

Diante de tal situação, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, ensina a igreja de Corinto e nós, hoje, que devemos abrir mão de nossos direitos, renunciar, para acabar com todo litígio que desonre a igreja e o Senhor. Mas quais as bases dessa renúncia? Por que devo renunciar aos meus direitos? Devemos agir assim, pois “fomos lavados, fomos santificados e fomos justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (v. 11).

Paulo escreve que os cristãos tinham sido “estas coisas[25] (tradução literal de “tais” na ARA e “assim” na NVI).

  1. 1.LAVADOS

Esse “lavar” é resultado do agir humano e divino. Humano na prática do batismo.[26] A igreja é a comunidade dos batizados. Divino, pois é resultado do agir de Deus na vida da pessoa. Essa afirmação pode ser feita com base no tempo verbal e na voz média da palavra. O tempo verbal aponta para uma ação concluída. A voz média aponta para uma ação realizada em benefício próprio (o batismo), como podemos encontrar no meio de um discurso de Paulo em Atos (22.16), quando ele foi preso: “E agora, que está esperando? Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome Dele”. Esse lavar gera salvação, pois é a purificação dos pecados operada pelo Espírito Santo, através de Jesus Cristo, conforme Paulo escreve a Tito (3.4-6):

Mas quando, da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Assim, esse “lavar” é um ato de purificação realizado por Deus em Cristo (cf. Ap 7.14 e 22.14).

Assim como os coríntios, também engrossávamos as fileiras daqueles que praticavam os atos listados nos versos 9 e 10, mas fomos “lavados” pelo sangue de Jesus Cristo. Não somos mais aquelas pessoas (“tais fostes alguns de vós [...]”)! Fomos transformados pelo lavar! Por isso devemos renunciar, pois nossos irmãos também foram transformados. Eram praticantes de tais atos, mas agora não são mais. Não podemos julgar, condenar, agir com injustiça e causar dano a alguém que foi lavado pelo sangue de Jesus.  

  

  1. 2.SANTIFICADOS

Se o “lavar” está na voz média, não podemos afirmar a mesma coisa sobre a santificação, que está na voz passiva,[27]-[28] ou seja, é Deus quem opera no ser humano.

Paulo já afirmara que os cristãos coríntios haviam sido “santificados em Cristo Jesus e chamados para serem santos” (1.2). No tempo verbal usada no original[29] a “santificação” é uma ação acabada, completa. Também é uma ação de Deus, pois está na voz passiva. Em outras palavras, Deus já santificou a igreja. A “santificação” literalmente significa “separado” por e para Deus, mas também pode ser entendida como consagrado, dedicado e purificado completamente. Um povo impuro tornou-se puro, santo, pelo agir de Deus.

Com base na santificação Paulo também argumenta contra os litígios. Não podemos levar à um tribunal pagão alguém que é santo. Os cristãos são santos, pois assim Deus os fez e por isso não devem ser levados a tribunais pagãos por outros cristãos.    

  1. 3.JUSTIFICADOS

Assim como a santificação, a justificação também está na voz passiva[30] e no mesmo tempo verbal. Ou seja, Deus já nos justificou. O apóstolo já escreveu afirmando que os cristãos coríntios eram em Cristo Jesus justificados (1.30). A justificação é “um ato judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da lei são satisfeitas com vistas ao pecador”.[31] É uma mudança de posição: estávamos condenados (cf. Rm 3.23), pois não cumprimos a Lei, mas Cristo, que cumpriu a Lei, assumiu na cruz nossas dívidas e por isso fomos considerados justos (inocentes dos nossos pecados), como se tivéssemos cumprido a Lei. A palavra no texto em questão significa tornar justo, mostrar, declarar e pronunciar que alguém é justo. Deus fez isso em Cristo Jesus na cruz!

Ao contrário dos cristãos coríntios que geravam a injustiça (vs. 8 e 9), o Senhor, na cruz, justificou seu povo, povo do qual os coríntios faziam parte. Para sermos justificados, Jesus teve de renunciar. Renunciou a sua posição de santo, fazendo-se maldito (Gl 3.13); renunciou sua posição de Deus, fazendo- servo (Fp 2.6-7). Porque Deus nos justificou no tribunal eterno, não podemos julgar e condenar irmãos que foram justificados por Ele (cf. Rm 8.33-34). Os cristãos que queriam julgar e condenar seus irmãos foram justificados por Deus.      

 

CONCLUSÃO

Os três verbos estão no tempo aoristo, “indicando um acontecimento único que os transformara completamente”.[32] Os cristãos de Corinto praticavam os pecados listados nos versos 9 e 10, “mas”. Essa expressão “mas” (avlla. - alla) marca a “intensidade da transformação” [33] experimentada por esses cristãos. Eles eram assim, mas foram transformados. É uma forte adversativa que salienta o contraste entre a vida antiga e a experiência que tiveram com Cristo.[34]

Fomos santificados e justificados e por isso devemos seguir o exemplo do Senhor que “renunciou” seus direitos ao morrer na cruz por nós e pediu perdão àqueles que o maltratavam: “Jesus disse: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” Lc 23.34. De igual modo, o diácono Estevão orou pouco antes de morrer ao ser apedrejado: “Então caiu de joelhos e bradou: Senhor, não os consideres culpados deste pecado. E, tendo dito isso, adormeceu” (At 7.60). A santificação e a justificação geram em nós o verdadeiro amor (1Cor 13) e o perdão. Com essas características, o mundo conhecerá que somos discípulos de Jesus Cristo (“Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” – Jo 13.35).



[1] Dicionário Michaelis UOL.

[2] MORRIS, Canon Leon. I Coríntios. Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1981, p. 74.

[3] Bíblia de Estudo NVI. Kenneth Barker (org., geral). São Paulo: Vida, 2003, p. 1960, n 6.1.

[4] BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto. Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo, RS: Sinodal/EST, 2008, p. 75.

[5] Anjos caídos. In: BRAKEMEIER, 2008, p. 76-77.

[6] PRIOR, David. A Mensagem de 1 Coríntios. A vida na igreja local. São Paulo: ABU, 1993, p. 113; STRABELI, Frei Mauro. Primeira Carta aos Coríntios. Explicação e atualização. Série Carta dos Apóstolos. São Paulo: Paulus, 1998, p. 55.

[7] PRIOR, 1993, p. 113; BRAKEMEIER, 2008, p. 77.

[8] Paulo apelou a César (Atos 25.1-12) e defendeu a dignidade e importância das autoridades (cf. Rm 131-7). Sua crítica aqui é contra processos judiciais entre cristãos.

[9] PRIOR, 1993, p. 113.

[10] renerbrito.blogspot.com/2010/01/gandhi-e-cristianismo.html

[11] pensador.uol.com.br/frase/NTM5NzA1/

[12] pensador.uol.com.br/frase/ODE2Mw/

[13] www.pulpitocristao.com/2010/03/arrogancia-nossa.html

[14] MORRIS, 1981, p. 76-77.

[15] Mesma palavra usada por Paulo referente a julgamento em 1Cor 6.

[16] Referente a práticas cultuais pagãs muito comuns em Corinto.

[17] Aquele que viola o leito matrimonial. In: MORRIS, 1981, p. 77. Quebra do Sexto Mandamento (Êx 20.14). In: BRAKEMEIER, 2008, p. 80.  

[18] Literalmente “macios”. “Efeminados” na ARA. Referência ao culto à Apolo.

[19] Que tem relações sexuais co homem e mulher.

[20] MORRIS, 1981, p. 77.

[21] Ladrões insignificantes. In: MORRIS, 1981, p. 77-78. Prática comum na época. In: PRIOR, 1993, p. 93.

[22] Ganancioso.

[23] Ladrão que usa da violência.  

[24] MORRIS, 1981, p. 77-78.

[25] MORRIS, 1981, p. 78.

[26] PRIOR, 1993, p. 96 e BRAKEMEIER, 2008, p. 82. 

[27] PRIOR, 1993, p. 97.

[28] A voz passiva indica que o sujeito gramatical de uma oração é de um ou outro modo receptor de uma ação. In: SWETNAM, 2002, p. 199.

[29] Aoristo. Este tempo verbal é usado para ação completa.

[30] PRIOR, 1993, p. 97.

[31] BERKHOF, 1990, p. 520.

[32] PRIOR, 1993, p. 96.

[33]PRIOR, 1993, p. 97.

[34] MORRIS, 1981, p. 78.