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04 Restauração da Justiça Social (Ne 5)

Ne 5. 1-19

INTRODUÇÃO

Uma situação que mexe muito comigo e gera um terrível sentimento de injustiça é quando vejo pessoas que não são idosas e não possuem nenhuma deficiência física parar o carro em vagas reservadas para pessoas com tais características. Uma reportagem abordou tal situação e flagrou uma psicóloga. Ela havia estacionado o carro em frente a um banco, na vaga reservada. Quando questionada pelo repórter, a resposta foi a seguinte: “Sou psicóloga”, e escondeu o rosto. Nesse caso fui tomado por uma sensação maravilhosa de justiça, pois ela foi flagrada, questionada e envergonhada diante de uma câmera. O sentimento de injustiça é terrível, mas o sentimento de justiça é maravilhoso. Essa é a situação daqueles que trabalham na restauração dos muros de Jerusalém.  

 

DESENVOLVIMENTO

Os inimigos e o trabalho nos muros saem de cena e um grave problema surge dentro da comunidade. Por causa de atitudes tomadas no Combate a Oposição (p. e. pernoitar na cidade para defesa) e o foco total na restauração dos muros, problemas sociais aparecem.

PROBLEMAS

Em meio à obra de restauração dos muros de Jerusalém, surgem problemas que provavelmente já existiam em meio à comunidade, mas que se manifestaram somente em meio a restauração dos muros. Os problemas são os seguintes:

  1. A.Fome (v. 2)

Por causa da defesa da cidade, muitos deixaram de cultivar suas lavouras[1] e isso fez com que a produção diminuísse sensivelmente em Jerusalém. A fome também fora motivada pela crise econômica que assolou a região na época e por uma provável seca (cf. Ag 1.11).[2]  

  1. B.Penhora (v.3)

Os judeus, motivados pela fome, penhoraram seus bens para conseguir trigo para a alimentação da família. Era necessário entre 200 kg a 250 kg de trigo por mês para sustentar uma família.[3] 

  1. C.Impostos (v. 4)

O Império Persa cobrava altos impostos dos povos dominados. Alexandre, o Grande, encontrou só na cidade de Susã 340 toneladas de ouro em moedas e 1.500 toneladas de prata armazenadas em barras. A aquisição de terras pelo império, que deixavam de servir a produtividade, elevava o preço de vários produtos em até 50%.[4]

  1. D.Escravidão (v. 5)

Os judeus mais abastados aproveitavam a situação e compravam as vinhas e os campos dos judeus mais pobres. Porque estes não conseguiam saldar as dívidas, filhos e filhas eram entregues como escravos aos compatriotas. Agindo assim eles quebravam uma ordem divina (Lv 25.39-43):

Se alguém do seu povo empobrecer e se vender a algum de vocês, não o façam trabalhar como escravo. Ele deverá ser tratado como trabalhador contratado ou como residente temporário; trabalhará para quem o comprou até o Ano do Jubileu. Então ele e os seus filhos estarão livres, e ele poderá voltar para o seu próprio clã e para a propriedade de seus antepassados. Pois os israelitas são meus servos, a quem tirei da terra do Egito; não poderão ser vendidos como escravos. Não dominem impiedosamente sobre eles, mas temam o seu Deus.

  1. E.Juros (v. 4 e 7b)

Os judeus mais abastados emprestavam aos judeus mais pobres e cobravam juros desses empréstimos. Isso era proibido na Lei (Lv 25.35-38; também em Êx 22.25-27 e Dt 23.20):

Se alguém do seu povo empobrecer e não puder sustentar-se, ajudem-no como se faz ao estrangeiro e ao residente temporário, para que possam continuar a viver entre vocês. Não cobrem dele juro algum, mas temam o seu Deus, para que o seu próximo continue a viver entre vocês. Vocês não poderão exigir dele juros nem emprestar-lhe mantimento visando lucro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês, que os tirou da terra do Egito para dar-lhes a terra de Canaã e para ser o seu Deus.

 

                        Os problemas são resultados de um problema maior: a falta de temor! O grande problema enfrentado por Neemias neste capítulo cinco é a falta de temor do povo, principalmente os mais abastados. A falta de temor é claramente exposta pelo profeta Isaías (29.13-16):

O Senhor diz: “Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens. Por isso uma vez mais deixarei atônito esse povo com maravilha e mais maravilha; a sabedoria dos sábios perecerá, a inteligência dos inteligentes se desvanecerá”. Ai daqueles que descem às profundezas para esconder seus planos do SENHOR, que agem nas trevas e pensam: “Quem é que nos vê? Quem ficará sabendo?” Vocês viram as coisas pelo avesso! Como se fosse possível imaginar que o oleiro é igual ao barro! Acaso o objeto formado pode dizer àquele que o formou: “Ele não me fez”? E o vaso poderá dizer do oleiro: “Ele nada sabe”?

 

            Este texto de Isaías é citado por Jesus em Marcos 7.1-13. Após a citação Jesus diz: “Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens”. Essa é a essência da falta de temor: a desobediência. Pessoas não obedecem a Deus, mas a homens e seus interesses. Agindo assim anulam a Palavra de Deus (cf. Mc 7.13). Por isso a falta de temor gera injustiça social. Jesus ao ser questionado qual é o maior mandamento (Mc 12.28), respondeu: “O mais importante é este: ‘Ouça, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’. O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Não existe mandamento maior do que estes.” (Mc 12.29-31). Quando Jesus diz “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças”, está dizendo: “Tema ao Senhor”. Isso fica claro ao lermos Deuteronômio 6.1-9, que inclusive é o texto que serve de base para a reposta de Jesus. Isso porque nas Escrituras amor é “sinônimo” de obediência: “Nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5.3). Percebe a relação entre temor, amor e obediência? Na Escritura é tudo a mesma coisa! Assim a falta de temor a Deus é desobediência, que por sua vez é falta de amor ao Senhor que gera a injustiça social, pois amar a Deus e ao próximo está intimamente ligado: “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

            O nosso mundo é um mundo de injustiça social, porque não ama/obedece/teme ao Senhor. Para nós, brasileiros, a injustiça é enfrentada todos os dias. Basta um passeio ou uma caminhada que encontraremos pessoas sem casa, sem alimento, dormindo nas ruas e crianças fora da escola. Também encontramos injustiça nos hospitais, nas delegacias. Pessoas que são tratadas como animais nas filas dos pronto-socorros, que não tem onde morar, que pagam um absurdo por planos de saúde que quando necessários são negligentes. Pagamos mais de 30% em carga tributária. No mundo, enquanto pessoas têm “milhões” e vivem luxuosamente, milhões de pessoas não têm o que comer. Sabemos disso! O problema, apontado pelo capítulo cinco de Neemias, está quando a injustiça social acontece dentro do povo de Deus. Esse é o problema. No “mundo” isso é comum, mas no meio do povo de Deus, na Igreja de Jesus Cristo, essa injustiça não deve ter espaço. Todos devem ser tratados igualmente e não deve haver, entre nós, nenhuma manifestação de injustiça.

 

GRAÇA E TEMOR

Diante da situação de injustiça social que quebrava a Lei e gerava pecado, Neemias tomou quatro atitudes:

  1. i.Ouviu – Ele ouviu a reclamação dos que sofriam com a injustiça;
  2. ii.Fúria – O que ouviu levou-o a fúria, isto é, a não aceitação da situação (cf. Mc 3.5; 11.15-17; Jo 2.13-17);
  3. iii.Avaliação – Neemias não agiu conforme sua fúria, mas avaliou a situação até encontrar a melhor maneira de agir (cf. Ef 4.26). A tradução da ARA é melhor (“Depois de ter considerado comigo mesmo [...]”);
  4. iv.Confrontação – A maneira de agir foi através da confrontação daqueles que estavam errados.

Neemias confronta os mais abastados que geravam injustiça social e os obriga a “andar no temor do nosso Deus” (Ne 5.9). Por que o temor ao Senhor gera justiça? Para respondermos essa pergunta, voltaremos a dois textos citados. Quando o Senhor condena a escravidão no meio do seu povo, explica por que: “Pois os israelitas são meus servos, a quem tirei da terra do Egito”. Quando proíbe a cobrança de juros, explica: “Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês, que os tirou da terra do Egito para dar-lhes a terra de Canaã e para ser o seu Deus”. Deus foi quem libertou Israel do Egito e por isso é Senhor e Deus desse povo. Ninguém tinha o direito de escravizar ou cobrar juros de um israelita, pois esses eram propriedades do Senhor. O ato libertador de Deus e seu governo sobre Israel igualavam todas as pessoas. Da mesma forma Jesus, ao morrer na cruz, livrou/salvou aqueles que Nele creem, gerando igualdade entre nós. Em Marcos 10.35-45 Jesus discute com seus discípulos a questão de quem é o mais importante e a conclusão do Mestre é a seguinte: “Jesus os chamou e disse:“Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo;e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.42-45). Justiça dentro da comunidade. Ninguém é maior do que ninguém. Com relação ao comportamento fora da comunidade, Jesus foi muito claro em Lucas 6.27-36. Neste trecho, a tese de Jesus é: “Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles” (Lc 10.31). E por temer/amar/obedecer a Jesus, não promovo a injustiça social, mas pelo contrário, promovo a Justiça Social dentro e fora da comunidade de fé. É como se a Escritura falasse o seguinte para nós: “Quer ter o direito de escravizar e cobrar juros? Morra na cruz pelo seu povo!”. O temor do Senhor é o amor e a obediência aos seus mandamentos. Isso gera a Justiça Social que é praticada da seguinte maneira:     

 

  1. 1.O REINADO DE CRISTO

O reinado de Cristo é baseado no temor do Senhor e isso gera a justiça, conforme anuncia o profeta Isaías (11.1-5):

Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um renovo. O Espírito do SENHOR repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do SENHOR.E ele se inspirará no temor do SENHOR. Não julgará pela aparência, nem decidirá com base no que ouviu; mas com retidão julgará os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Com suas palavras, como se fossem um cajado, ferirá a terra; com o sopro de sua boca matará os ímpios. A justiça será a faixa de seu peito, e a fidelidade o seu cinturão.

            Dos profetas, Isaías é quem mais usa a palavra “temor”. Assim o faz, pois como nenhum outro, anuncia o reinado do Ungido de Deus. Esse Reino é anunciado em Isaías 61.1-3:

O Espírito do Soberano, o SENHOR, está sobre mim, porque me ungiu para levar boas novas aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo de alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do SENHOR, para manifestação da sua glória.  

          

O reinado de Cristo é baseado no temor do Senhor e esse temor é “colocado” no coração do povo de Deus: “Farei com eles uma aliança permanente: Jamais deixarei de fazer o bem a eles, e farei com que me temam de coração, para que jamais se desviem de mim” (Jr 32.40). Se estamos sob o governo de Cristo, tememos o Senhor e promovemos a Justiça Social.

 

  1. 2.O EXEMPLO (vs. 14-19)

Neemias, como governador de Jerusalém, tinha alguns direitos que eram bancados através dos impostos cobrados do povo. Porém, como líder e promotor da Justiça Social ele “abre mão” de seus direitos em benefício do povo. Para isso, ele toma duas atitudes:

  1. a.Participação no trabalho

Ao invés de oprimir o povo como fizera os governadores anteriores, Neemias se “dedicou ao trabalho do muro” (Ne 5.16a), ou seja, envolveu-se com o povo e com o trabalho de restauração.

Assim é Jesus! Em seu reinado baseado no temor do Senhor, encarnou-se e viveu entre nós, nos libertando/salvando. Como Jesus, devemos nos envolver no trabalho, pois isso gera temor do Senhor e consequentemente Justiça Social.

 

  1. b.Igualdade

Ao invés de se alimentar da comida destinada ao governador, o que era seu direito, Neemias não apenas bancava sua alimentação como também abria sua mesa a 150 pessoas do povo. Assim ele promovia a igualdade, pois para um judeu, só alguém profundamente igual toma parta a mesa com ele. Ele não exigia a comida do governador, mas promovia a igualdade entre o povo. Esse comportamento é reflexo do Ano do Jubileu (Lv 25) e do Ano da Remissão (Dt 15). Esses anos promoviam a justiça entre o povo de Deus.

Jesus, “embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens [...]” (Fp 2.6-7). Jesus, o grande Deus e Senhor de todas as coisas se igualou a nós, por que lutamos e valorizamos a diferença entre as pessoas?

O temor do Senhor deve gerar em nós e entre nós a Justiça Social. Isso porque estamos sob (ou pelo menos deveríamos estar!) o reinado de Cristo e através do exemplo devemos gerar e promover essa justiça. Entre nós não deve haver diferenças! Não devemos tratar com diferença as pessoas por causa do carro que param na frente da igreja, por causa da roupa que vestem, por causa da casa que tem ou do bairro em que moram. Essas diferenças não devem e não podem existir entre nós! Devemos viver e promover a Justiça Social entre nós e no mundo. O Reino de Deus é um Reino de Justiça! A Restauração da nossa comunidade passa, necessariamente, pela promoção da Justiça Social, aqui e lá fora.  

Abraham Kuyper, pastor reformado na Holanda, assumiu a posição de Primeiro Ministro em 1901 a trabalhou nesse cargo até 1905. Na época a Holanda atravessava uma terrível fase que é ilustrada com a seguinte frase: “A vida eclesiástica estava fria e formal. A religião estava quase morta. Não havia Bíblia nas escolas. Não havia vida na nação”.[5] Através de sua fé reformada, o Dr. Kuyper trabalhou pelo país motivado pelo senso de vocação que encontramos na seguinte declaração:

Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.[6]   

            Assim, através de sua fé e trabalho, ele reformou a Holanda e transformou o país. Por isso, historiadores atestam que:

A história da Holanda na igreja, no Estado, na imprensa, na escola e nas ciências dos últimos quarenta anos, não pode ser escrita sem a menção de seu nome em quase todas as páginas, pois durante este período a biografia do dr. Kuyper é, numa extensão considerável, a história da Holanda.[7]

 

            A fé em Jesus Cristo é transformadora e através dela devemos gerar a justiça social.

CONCLUSÃO

Temer a Deus é amá-lo e obedecê-lo. Essa é nossa relação com Ele. Isso deve nos levar a entender que todos em Cristo são iguais, não há diferença. Assim, devemos promover a Justiça Social na comunidade e na sociedade em que vivemos, pois o Reino de Deus é um Reino de Justiça.



[1] Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, AT, p. 525, n. a.

[2] Bíblia de Estudo NVI, 2003, p. 774, n. 5.3.

[3] Bíblia de Estudo NVI, 2003, p. 774, n. 5.2.

[4] Bíblia de Estudo NVI, 2003, p. 774, n. 5.4.

[5] www.monergismo.com/textos/biografias/bio_kuyper_hendrik.htm

[6] www.monergismo.com/textos/biografias/bio_kuyper_hendrik.htm

[7] www.monergismo.com/textos/biografias/bio_kuyper_hendrik.htm